Sejam todos bem-vindos! Este é um blog criado para divulgar meus contos e trabalhos artísticos. Espero que gostem!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM ESTAGIÁRIO DE DIREITO 2


O CASO DO CHARLES BRONSON DE SÃO CRISTÓVÃO – FINAL



            A testemunha morava quase dentro da Favela da Maré, há poucos metros da Passarela nº 8 da Avenida Brasil. Eu estava em frente ao portão da casa e ao lado do chassi incinerado do que um dia foi um fusca, desesperado, ligando para o escritório.
            De repente, um grito abafado de socorro quase parou meu coração. Vinha de dentro da casa e parecia a voz de uma mulher. Quando informei a novidade pelo celular, a resposta de Nelson não pôde ser mais cretina:
            - Dá o teu jeito, Washington! Salve a testemunha!
            Comecei a discar 190, porém antes de completar a ligação imaginei que talvez não houvesse tempo suficiente e depois concluí – olhando para o ex-fusca – que a polícia não deveria ser muito bem recebida ali.
            - Socorro! – ouvi o grito de novo.
            Pensei no Charles Bronson sendo condenado mesmo agindo em legítima defesa. Pensei na possibilidade de perder meu estágio. Mas, sobretudo, pensei no meu PlayStation II.
            Em momentos de grande tensão, pessoas costumam fazer coisas idiotas. Eu não era diferente. Decidi invadir a casa através do muro da vizinha, que era mais baixo, mas como não nasci com vocação para trapezista, assim que consegui pular para o muro que dividia os dois terrenos me desequilibrei e cai em cima do varal da testemunha. Não é difícil suspeitar que aquilo não daria certo. A ponta da corda atrás de mim arrebentou e desci pendurado nela como uma mistura de Indiana Jones e Os Trapalhões. E para completar minha patetice, o alagamento da cisterna transformou o chão em uma verdadeira lâmina d’água, o que fez com que eu deslizasse – ainda sem soltar a corda e com um calçolão na minha cara, tapando minha visão – até chapar por completo em uma lixeira e um monte de quiquilharias encostadas na parede dos fundos.
            Recompus-me rapidamente, mas não sem antes, num lampejo de Direito Civil, lembrar que, caso causasse algum dano ao patrimônio alheio naquele salvamento, a excludente do “estado de necessidade” não me protegeria de ter que indenizá-lo. “Será que vão descontar do meu pagamento? Não, eles não seriam tão muquiranas... Ah, esqueci que estou lidando com advogados. É claro que vão me descontar.”
            - Socooooorro! – o grito abafado me despertou do meu devaneio jurídico.
            Entrei pela porta dos fundos (a única destravada) e vasculhei pela casa até encontrar a testemunha de um jeito que eu jamais imaginaria: amordaçada e amarrada pelos pulsos à cabeceira da cama do quarto.
            - Ele é maluco! – disse ela assim que tirei a mordaça. – Me tira daqui, moço!
            - Quem fez isso com você?
            - Tonhão, o meu namorado! – realmente ela tinha um dedo podre para a coisa. – Ele tá achando que eu to traindo ele! Me amarrou aqui pra “mim” não “se” encontrar com ninguém enquanto ele trabalha!
            - Ufa! Então ele tá longe daqui...
            - Daqui a pouco ele chega pra almoçar!
            Ela nem havia terminado a frase e eu já estava desamarrando suas mãos que nem um doido. Coloquei-a sentada na cadeira de rodas, apoiando as pernas engessadas com cuidado, e nos mandamos dali mais rápido que um advogado consegue dizer “liminar inaudita autera pars”.
            Quando Tonhão chegou em casa para almoçar, nós já estávamos pegando um táxi na Avenida Brasil.

A Audiência



            A última testemunha a ser ouvida antes da moça do caixa era uma moradora do prédio em frente ao lugar onde aconteceu o fato. A senhora Lourdes Maria, de 75 anos, chamada pela acusação, disse que assistiu tudo de sua janela e jurou que viu Eleutério sacar a arma antes da vítima. Doris Day tinha acabado de inquiri-la e o juiz em seguida passou a palavra para Nelson.
            O júri observava tudo já cansado, com vontade de ir para casa, e quase chiou quando ouviu a inesperada pergunta do advogado:
            - A senhora gostava da novela Selva de Paixões?
            - Excelência! Essa pergunta não tem nada a ver com o caso! – protestou Doris.
            - Meritíssimo – suplicou Nelson quase teatralmente, antes de ter sua pergunta indeferida –, essa pergunta é crucial para a resolução do caso e prometo que não vou me estender! Deixe-me terminar o raciocínio e todos saberão a verdade!
            O juiz consentiu e os jurados baixaram a cabeça.
            - Sim, era minha novela preferida... Quando o Orlando Fagundes aparecia na tela minha pressão até subia!
            - Muito bem. E a senhora se lembra do último capítulo?
            - Claro! Vi duas vezes, até na reprise do sábado!
            - A senhora lembra o dia em que foi ao ar o último capítulo?
            - Protesto! – interrompeu Doris, novamente.
            - Prossiga – disse o juiz.
            - A novela Selva de Paixões acabou no dia do ocorrido e o seu último capítulo foi ao ar no exato momento em que o réu repeliu a agressão da vítima! Pode conferir no site da rede de TV! A senhora estava tão distraída que nem sequer ouviu a discussão no trailer, não é?
            - Excelência! Ele está induzindo a testemunha!
            Nelson, com o rosto vermelho e a veia quase saltando do pescoço, continuou sem esperar a decisão do juiz.
            - A senhora não ouviu a discussão e por isso não pôde ter levantado do sofá, pego seu andador e ido até a janela a tempo suficiente de ver se o réu sacou a arma antes ou depois da vítima! É melhor admitir isso antes de ser acusada de violar seu compromisso!
            - Protesto! Protesto! – a promotora quase pulava de sua bancada.
            O júri agora assistia estarrecido a reviravolta do caso.
           - Esse homem é um assassino! O Pedrinho era um bom menino! – bradou dona Lourdes, quando viu que havia sido desmascarada. – Vocês tem que prendê-lo!
            - Sem mais perguntas, Excelência... – Nelson voltou ao seu lugar com um sorriso no canto da boca. Clarice e eu, que assistíamos a audiência junto com a plateia embasbacada, tivemos vontade de aplaudi-lo.
       O testemunho da Joseane, a moça do caixa, foi apenas a tampa do caixão. A performance surpreendente de Nelson havia pego os jurados de jeito. Por um instante fiquei com aquela sensação ruim de “tanto trabalho pra nada”, no entanto o gosto de ter participado de alguma forma daquela vitória foi tão sensacional que nem tive vontade de reclamar. Além disso os meus hematomas só doeram pra valer no dia seguinte. 
            Doris Day, em suas alegações finais, abandonou a questão de “quem sacou a arma primeiro” e ressuscitou o ponto do “excesso na legítima defesa”. Nelson já havia refutado essa acusação dizendo que, de acordo com o treinamento que Eleutério recebera, caso tivesse intenção de matar, teria acertado em algum ponto do tórax para cima.
            Eleutério Gomes, o Charles Bronson de São Cristóvão, foi absolvido por seis votos contra um e quase pulou de alegria quando ouviu o veredito. Doris Day ficou revoltada e prometeu apelar. 
          Coloquei Joseane num táxi, porque de jeito nenhum arriscaria encontrar o tal do Tonhão me esperando em Bonsucesso. Antes de partir, ela me perguntou se poderia me “considerar seu herói” e me passou um bilhete com um número de telefone – pelo visto as suspeitas dos seus namorados não eram tão infundadas, ela gostava de um litisconsórcio amoroso...
Por fim, voltamos para o escritório sorridentes após aquela vitória, mas a estratégia de Nelson se revelou mais surpreendente do que eu pensava:
- Quando você descobriu que o final da novela tinha passado naquele dia? – perguntei.
- Cara, eu sei lá que dia acabou essa novela! Joguei verde pra colher maduro!
- Peraí? Você blefou?
- A testemunha tem o compromisso de falar a verdade, eu não. E eu suspeitava que ela estava mentindo. Você também vai pegar esse feeling.
- Sensacional! – tive a sensação de que aprenderia muito naquele estágio e já comecei a me imaginar um grande advogado num futuro bem próximo.
- Ah, meus parabéns por ter trazido a testemunha. Ótimo trabalho! - por um instante, achei que ele não lembraria de me agradecer pelo meu "heroico" desempenho.
         Peguei minha mochila enquanto agradecia. Era o fim do meu primeiro dia no escritório e estava cansado de tantas emoções, porém ainda tinha uma aula me esperando.
- Estou dispensado, então?
- Claro, Washington! Quando acabar de arrumar o arquivo, pode ir! 
         É fato: o estagiário sempre se ferra.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM ESTAGIÁRIO DE DIREITO

Atenção, você está intimado a seguir as peripécias de Washington Silva, o zigoto de advogado do Andrade Filho - Advogados Associados, em histórias intrigantes e bem-humoradas sobre os bastidores do Direito! 

Fique à vontade para consignar abaixo seus elogios e seus protestos!

            A série "Memórias de um Estagiário de Direito" entra em vigor na data desta publicação.
          
       

O CASO DO CHARLES BRONSON DE SÃO CRISTÓVÃO - PARTE I

Charles Bronson

            Saí de casa naquela manhã de agosto de 2006 com um ar triunfante, assim que terminei meu café. Na mochila levava os amigos inseparáveis de todo estudante de Direito: um mini vade mecum, o caderno da aula da noite e duas canetas Bic (com as tampas mordidas, é claro!). O terno azul-marinho era novo – presente do meu pai – e a gravata estava no bolso, porque no Rio de Janeiro até no inverno parece que o Senhor às vezes liga o maçarico. Dentro do ônibus lotado que precisava pegar, então, nem se fala.
            Meu nome é Washington Silva e aquele era meu primeiro dia no escritório de advocacia Andrade Filho - Advogados Associados, lugar onde conheci pessoas incríveis e vivi inúmeras aventuras, que agora resolvi relatar.    
            O estágio me fora arranjado pelo meu pai, que era gerente da loja de roupas preferida do Dr. Rubens Andrade Filho, o dono do escritório. É impressionante o network que se forma em uma loja de roupas. Papai sempre conseguia alguma coisa para mim e para meus irmãos através dos seus clientes, como ingressos para shows, descontos em cursos, bicos e, desta vez, um contrato de estágio.
            Cursava o 7º período da faculdade de Direito, tinha acabado de pegar minha carteirinha de estagiário da OAB e não apenas desejava um estágio como precisava de um. Nossa família era humilde e, se eu quisesse regalias, tinha que “suar a camisa”, como dizia meu pai, um homem que veio de Reriutaba, interior do Ceará, ainda adolescente e ralou muito aqui no Rio de Janeiro para conquistar seu lugar ao sol, ainda que fosse um lugar bem apertado.
            O escritório ficava no 4º andar da Rua México nº 22, sala 401. Enquanto subia pelo elevador, coloquei minha gravata e respirei fundo para conter o nervosismo. Estava uma pilha de nervos. Ensaiei alguns cumprimentos ali mesmo, já que estava sozinho.
            - Aperte a mão sempre com firmeza – papai ensinava –, isso mostra que você é um “cabra” decidido.
            Toquei a campainha. Ninguém.
            Toquei de novo. Nada.
            - Estranho...
            Apertei o botão mais uma vez.
            - Será que errei de número? Mas o nome do escritório está na porta...
            Claque, Claque. A porta se abriu e um homem de terno cinza, meio bagunçado, apareceu.
            - Desculpe, é que o filho da secretária pegou uma virose e estamos atolados de trabalho aqui. Você é o estagiário novo?
            - Sim, Washington Silva, muito prazer – apertei a mão dele com firmeza.
            - Nelson Pascarelli. Entre, seja bem-vindo ao nosso time!
            O Andrade Filho era um escritório pequeno e pegava todo tipo de causa. Nele testemunhei os casos mais esdrúxulos e também os mais escabrosos. A sala não era muito grande, mas parecia ainda menor que da primeira vez que estive lá, há uma semana, quando fiz a entrevista com o Dr. Andrade. Acredito que tive essa impressão porque agora estava presente todo o imenso corpo jurídico de três advogados que nele trabalhavam.
            Nelson Pascarelli era um sujeito engraçado, cheio de TOCs e bastante atrapalhado, mas que se mostrou muito competente em muitos casos de que pude participar. Tinha pouco mais de 30 anos e era especializado em Direito Penal, apesar de atuar em causas cíveis com alguma desenvoltura. Um cara apaixonado pela advocacia, que não conseguia se ver fazendo outra coisa na vida. Brilhante, mas completamente desregrado. Não completava uma pós-graduação que se metia a fazer, sua conta bancária era mais vermelha que o uniforme do América F.C. (havia mais de um ano que ele não conseguia sair do cheque especial) e sua vida amorosa parecia um filme do Woody Allen.   
            Clarice Oliveira, a outra advogada, era baixinha, magrinha e poderia facilmente ser confundida com uma estagiária, por aparentar ser bem mais nova do que realmente era. Sua aparência meiga e frágil me fazia lembrar a princesa do Mário Bros. (apesar de ser morena), mas isso era só fachada. Não demorou muito para descobrir seu lado estressado, workaholic e, principalmente, combativo, o que conta muito na nossa profissão. Peitava qualquer juiz, policial, atendente de telemarketing... e quando abria a boca para dar uma “escovada” em alguém, parecia uma Tsunami. Fazia mestrado em Responsabilidade Civil e cuidava, na maior parte do tempo, do que chamamos de “contencioso de massa”, ou seja, as ações repetitivas que lotam qualquer tribunal.
            Por fim, o chefe. Rubens Andrade Filho, um bon vivant de quase cinquenta anos, administrava o escritório e só atuava nas causas muito grandes. Possuía uma ex-mulher e também ex-sócia que levara metade do escritório no processo de divórcio. Desde então passaram a ser rivais nos negócios e não raramente se engalfinhavam no Tribunal de Justiça do Estado. Gostava de mandar e-mails motivacionais para a equipe, em geral PowerPoints do tipo que todo mundo deleta, mas ficava meio arisco quando alguém pedia um aumento. “Não sei, estamos com muitas despesas”, costumava dizer.
            Todos me receberam muito bem, com sorrisos, tapinhas nas costas e a famosa mentira “pode me perguntar qualquer dúvida que eu te ensino”.
            Minha primeira tarefa trouxe um peso imenso para meu currículo e agregou muito valor à minha vida profissional:
            - Washington, pode arrumar as pastas no nosso arquivo? A semana passada foi muito cheia e acabamos fazendo uma bagunça enorme.
            - Claro, Dr. Andrade!
            - Pode me chamar de Rubens – disse sorrindo.
            Enquanto organizava as pastas dos processos pela ordem alfabética no arquivo de metal colado na parede, aproveitei para ouvir a conversa dos advogados e ir me familiarizando com os assuntos do escritório.
            - Clarice, esqueci de te perguntar, como foi a audiência da Vânia na sexta? – perguntou o chefe.
            - Horrível! A safada não me disse que tinha feito exames médicos antes de contratar o plano de saúde e eles descobriram que ela já sabia do problema cardíaco. Doença preexistente... Fui pega com as calças arreadas.
            - Que droga! – disse Nelson.
            - Por falar nisso – continuou o Dr. Andrade, digo, Rubens –, hoje é a continuação da audiência do Eleutério Gomes, não é, Nelson?
            - Aham, o Charles Bronson de São Cristóvão.
            Clarice riu:
            - Só você para dar um nome desses ao caso!
Doris Day
            - Saímos sete horas na noite na sexta e o júri ainda não tinha ouvido todas as testemunhas. O juiz marcou a continuação para hoje à 13h. A Doris Day já deve estar roendo as unhas hahaha!
            Aprendi depois que Doris Day era o apelido que Nelson dera à Solange Olivetti, Promotora de Justiça encarregada do caso, por causa do seu jeito xerife, em homenagem ao filme “Ardida como Pimenta”, estrelada pela primeira.
            Rubens perguntou se estava tudo ok para a audiência e Nelson disse que sim, precisava apenas buscar uma das testemunhas.
            Eu necessitava demais daquele estágio. Queria aprender muito e me tornar um grande advogado, mas, principalmente, pretendia comprar um PlayStation II. Parei de arrumar as pastas e intervi na conversa:           
- Posso buscá-la para vocês! Enquanto isso o Nelson fica se preparando para a audiência! – dá-lhe Washington Silva, que exemplo de proatividade!
            - Ótima idéia – disse Rubens.
            - Esse menino promete, heim? – brincou Clarice.
            Nelson concordou e me chamou para explicar o caso, enquanto tirava uma caixa de balas do bolso do terno.
            - Quer um tic-tac?
            Aceitei e peguei uma bala só, para não parecer muito abusado.
            - Pegue duas – a princípio achei que fosse generosidade, mas descobri depois que Nelson tinha um TOC com números ímpares. Até o volume do rádio ele sempre mudava para um número par, mesmo não sendo o dono do aparelho.
            Eleutério Gomes era um policial militar aposentado metido a justiceiro. Rezava a lenda que ele havia integrado o Esquadrão LeCoq nos anos 70 e que gostava de caçar os pivetes de São Cristóvão, bairro onde morava, ao melhor estilo Charles Bronson em Desejo de Matar.
            Certa noite ele e sua esposa comiam cachorro-quente tranqüilamente em um trailer perto da Quinta da Boa Vista, quando Pedro Lopes, um valentão do bairro apareceu já bêbado e quis conversar com a moça do caixa, sua ex-namorada. Pedro não aceitava o recente fim do namoro, especialmente por haver rumores de que ela já havia feito a fila andar.
            Como ela estava trabalhando, tentou enxotá-lo como se fosse uma mosca impertinente e isso o irritou. Começou uma discussão e Pedro foi ficando cada vez mais agressivo, a ponto de segurá-la pelo braço com força.
           Foi demais para Eleutério. O justiceiro não podia admitir que uma moça tão simpática fosse tratada daquela maneira. Levantou-se de sua mesa e foi até Pedro.
            - Deixe a moça em paz!
            - Vá embora, seu velho!
            - Eu disse para deixar a moça em paz!
            - Vovô, se manda antes que sobre pra você também!
            Quando Pedro virou de costas, Eleutério o puxou pela gola da jaqueta e o jogou no chão (a queda foi facilitada pela embriaguez). Em seguida, o velho sacou seu revolver calibre 38 da cintura e deu quatro tiros no valentão: o primeiro ele errou, o segundo ficou alojado na coxa esquerda de Pedro, o terceiro varou a coxa direita e o quarto acertou o seu abdômen. O homem agonizou e morreu antes de a ambulância chegar.
            - Estamos alegando legítima defesa – afirmou Nelson.
            - Não acha que houve excesso? – perguntei.
            Naquele instante aprendi minha primeira grande lição a respeito da advocacia:
            - Washington, se você não acredita na sua causa, ela já está perdida antes da sentença. Não somos pagos para julgar, somos advogados... Além disso, Pedro também estava armado e há duas testemunhas que disseram que ele tentou sacar seu revólver antes de Eleutério. O problema é que uma delas já faleceu.
            - E a segunda é a que eu tenho que buscar?
            - Isso. O nome dela é Joseane Santos, a moça do caixa. Combinei de buscá-la porque sofreu um acidente de moto-táxi e não está podendo andar temporariamente.
            - Ok, sem problemas.
            - Aqui está – me passou um pedaço de papel com o endereço e uns números de telefone.  – Sabe chegar em Bonsucesso?
            - Sei, claro.
            - Vá de ônibus e volte com ela de táxi – que muquirana. – Pegue dinheiro na saída.
            Aceitei minha primeira missão com muita satisfação e também aliviado por ter largado o trabalho chato com as pastas, mesmo sabendo que teria que terminá-lo depois. Mas eu não sabia onde estava me metendo. Quando cheguei ao endereço que Nelson me passara, não encontrei ninguém. Liguei para os números de telefone e ninguém atendia. Perguntei por ela aos vizinhos e me disseram que não a viam desde o dia anterior.
Fiquei desesperado. Faltavam 2 horas para a audiência e a testemunha havia sumido!

Continua na próxima semana!

DEGUSTAÇÃO! - Confira agora um trecho do meu livro, Reféns!


Sinopse:


Reféns é a emocionante história de cinco estrangeiros – um missionário, uma enfermeira, um cientista político, uma escritora e um ex-militar – que são levados por talibãs para um cativeiro inusitado: um antigo bunker soviético nas montanhas afegãs.

Sem esperança de sobrevivência, a solução encontrada é arriscar uma ousada tentativa de fuga. Mas enquanto os reféns empreendem seu plano, inusitados acontecimentos fazem surgir uma inquietante pergunta: será que a escolha deles pelos sequestradores foi aleatória ou existe um propósito sobrenatural que os une?

Amor. Vingança. Honra. Redenção. Deus. Com uma narrativa empolgante, o livro prende o leitor com muita ação e suspense ao mesmo tempo que expõe o drama de seus personagens e aborda temas que permeiam a existência humana como um todo, independentemente de etnia, língua ou nação.



O trecho a seguir faz parte do Capítulo 2: 


"O jovem conseguia abrir os olhos aos poucos e pôde perceber sobre si um belo rosto feminino, emoldurado por cabelos vermelhos, olhando atentamente para ele enquanto passava a mão em sua testa. Sua cabeça estava amparada sobre um pedaço de blusa verde molhada de sangue.
            - Ele está acordando – disse ela para os outros.
            - Quem é você? – perguntou Jonas à moça.
            - Meu nome é Faye e o seu?
            - Jonas. O que aconteceu?
            - Ele está com amnésia... – disse Christie.
            - Eu me lembro de ter pegado um dos caras de turbante que invadiram o ônibus... e mais nada depois disso.
            - Você levou uma coronhada na nuca – esclareceu Jeremy, ainda nervoso.
            - Então é por isso que minha cabeça está parecendo uma panela de pressão... – Você é médica? – perguntou para Faye.
            - Enfermeira... tente descansar agora.
            - Durante quanto tempo eu fiquei apagado?
            - Umas quatro horas.
            - Então já descansei demais – disse Jonas resoluto, enquanto se levantava com um pouco de dificuldade.
            Olhou à sua volta e percebeu que aquele local era bem diferente. As paredes possuíam um pouco mais de dois metros de altura e haviam sido construídas todas de grandes blocos de pedras, sendo que em algumas partes estes blocos se encaixavam perfeitamente, ao passo que em outras a composição era bem irregular, parecendo um mosaico de pedras de diferentes tamanhos e formas. O teto era formado de rochas, meio acidentado e com algumas rachaduras. Já o chão era praticamente todo em terra batida, com exceção de algumas pedras planas que podiam ser vistas em alguns lugares, e parecia ter sido quase que perfeitamente nivelado. Também existiam vigas de madeira instaladas junto das paredes – principalmente nos cantos – para auxiliar na sustentação. 
Um cômodo minúsculo se formava atrás de uma estreita porta de madeira com algumas rachaduras – era o banheiro: um cubículo de um metro de largura por um de profundidade, também envolto por pedras, contendo uma placa de metal no chão com um furo no meio que servia de latrina.
A pouca iluminação daquele ambiente provinha de duas luminárias presas no alto das paredes. Sua fiação vinha por dentro de um longo tubo de plástico, fazendo um caminho rente às pedras, preso por braçadeiras de metal, e terminava passando por dentro do respiradouro – um buraco que ficava acima de uma enorme porta de ferro um pouco corroída pela umidade.
Estavam trancados.
Jeremy, de pé e encostado numa das paredes, inquieto, pensava o tempo todo. Suas mãos não paravam de se mexer, ora estalando os dedos, ora tocando seu rosto. Era o mais tenso de todos. Christie e o homem que lhe ajudara com a mala dentro do ônibus pareciam haver se refugiado em cantos opostos da sala, sentados. Ele exibia um semblante triste, olhando para o chão. Christie continuava fazendo suas preces sem emitir nenhum som. Faye também se levantara, logo após Jonas.
Não era uma sala muito grande. No entanto seu espaço permitia que os reféns se isolassem um pouco para pensar, orar, chorar ou até mesmo refletir na vida que levavam.
            - Nós ainda estamos no Afeganistão? – perguntou Jonas.
            - Eu acho que nos levaram para o Paquistão... – Christie se manifestou.
            - O caminhão era da Cruz Vermelha – disse Faye –, eles podem ter nos levado para qualquer lugar sem enfrentar muitos problemas...
            - Nós ainda estamos no Afeganistão – Jeremy afirmou de forma categórica. – Teriam revistado a parte de trás do caminhão se tivéssemos cruzado a fronteira. Duvido que eles correriam esse risco.
            - Eles podem ter subornado alguém para isso – argumentou Jonas.
            Jeremy continuou:
- Minha aposta é que tenham nos levado a algum lugar perto de Charikar. Dava tempo. O nosso ônibus estava indo em direção a Cabul e quando fomos atacados fazia mais ou menos uma hora que ele havia saído de Jalalabad.
            - É verdade – concordou Christie – viajamos mais de duas horas e meia naquele caminhão. Mas eles também podem ter voltado para Jalalabad e pegado a estrada para Methar Lam. Podemos estar numa das montanhas perto da aldeia. Tinha um rasgo no meu capuz e eu pude ver que andamos uns metros dentro de uma caverna depois que saltamos do caminhão.
Jonas sentiu que era o único do grupo que não passeou bastante pelo Afeganistão. Não conhecia metade dos lugares mencionados até aquele momento.
            - Methar Lam está ocupada, há uma base lá – Jeremy refutou a teoria de Christie –, eles não foram para lá.
            - Eu não disse que estaríamos em Methar Lam, necessariamente – Christie insistiu –, eu disse “perto”, em algum lugar na província de Laghman.
            - E se eles ficaram rodando em círculos para nos enganar? – Faye levantou uma tese que fazia sentido. – Talvez ainda estejamos próximos à estrada onde nos pegaram.
            - Em resumo, podemos estar em qualquer lugar. Ótimo – concluiu Jonas, sarcasticamente.
Caverna afegã
            Ficaram em silêncio, pensando em tudo que havia sido dito.         
            De repente, ouviram sons de passos do lado de fora, seguidos de um estalo na porta de ferro. Os sequestradores entraram abruptamente, uns com fuzis nas mãos, outros segurando cordas e capuzes pretos. Como se não bastassem as armas, gritavam para intimidá-los. Amarraram e encapuzaram um a um, levando-os depois por um estreito corredor até uma outra câmara bem parecida com a que eles estavam.
            Seus corações disparavam dentro de seus peitos e eles se sentiam sufocados mais pelo medo que pelo pano grosso que cobria suas cabeças.
            Foram colocados de joelhos um do lado do outro, enfileirados. Suas mãos estavam amarradas atrás das costas.
            Retiraram os capuzes deles.
            Naquela sala havia uma bandeira afegã ao fundo e uma filmadora presa a um tripé bem na frente deles. Dois homens com os rostos cobertos – só dava para ver os olhos – ficavam em pé atrás deles e um terceiro operava a câmera, sem máscara. Ao lado dele um outro homem se preparava para fazer um discurso ameaçador. Sua voz apareceria em off e por isso não se preocupava em esconder a face.   
            Lágrimas silenciosas corriam do rosto de Faye, que se contraía em angústia. Seus lábios tremiam. Christie tentava se acalmar com suas orações e Jeremy se concentrava nas palavras dos sequestradores para traduzir o que diziam. Jonas sentia mais raiva do que medo, contudo não quis encontrar um meio de resistir desta vez, era melhor observar e esperar. Afinal, naquela situação, não havia muito o que fazer senão obedecer. O senhor era o único que não esboçava muita reação. Se estava assustado ao menos não demonstrava, permanecia sério e contido, como se estivesse acostumado a situações desse tipo.
            Jonas olhou para Faye e sentiu pena dela. Não a conhecia, mas queria poder fazer alguma coisa para que ela parasse de chorar. Por um instante percebeu que suas atitudes deveriam ser bem calculadas para não colocar em risco a vida daquelas outras pessoas. Não dava para brincar de criança rebelde. Não ali.
            Jeremy buscava reparar atentamente em tudo. Olhou para a direita e viu que a porta estava entreaberta. Queria ver como era o corredor, quantas câmaras tinha aquele lugar, etc. “Droga de miopia!”, pensou.
            O cameraman deu uma breve espiada na tela de LCD aberta ao lado da filmadora para ver se estavam todos bem enquadrados. Fez sinal para o homem do lado, que começou a falar agressivamente.
            O frio na barriga era inevitável e junto com ele o medo do inesperado.
            O discurso não se amenizava em nenhum momento e o tom de voz exaltado era o típico de um militante inflamado. Jeremy se esforçava para decifrar o significado de cada frase.
            Num determinado instante, Jonas sentiu o cano do AK-47 encostar na parte de trás de sua cabeça. Fechou os olhos e se preparou para se despedir desta vida.

     Foi um alívio para todos quando no minuto seguinte o homem parou de gritar. O cameraman apertou um botão de sua máquina e fez um sinal para todos com a mão esquerda, ao mesmo tempo que exclamou uma palavra que só seus companheiros entenderam. Christie se perguntou se aquilo era um “corta”, como dizem os diretores de cinema. A filmagem estava encerrada.
            O que estava atrás de Jonas desencostou o fuzil kalashnikov de sua cabeça e ajudou os outros sequestradores a colocarem novamente o capuz nos reféns.
            Os cinco retornaram à sala em que estavam, onde retiraram os seus capuzes, desamarraram as suas mãos e os jogaram para dentro com a delicadeza de um elefante. A porta foi trancada em seguida com tanta violência que os assustou. Aqueles que estavam de costas não discerniram de primeira se era mesmo a porta batendo ou um tiro sendo disparado.
Faye ainda soluçava quando foi abraçada por Jeremy. Christie e o velho voltaram aos seus lugares de antes. O olhar dele era triste e ela agora começara a chorar. Todos estavam em choque e ninguém conseguia dizer qualquer palavra. Jonas foi para um canto, encostou-se à parede e fechou os olhos.
Somente alguns minutos depois, Christie rompeu o silêncio:
            - Alguém... Alguém entendeu o que aquele homem terrível disse?
            - Eu falo um pouco de pashtun – respondeu Faye enxugando as lágrimas – mas não consegui entender nada.
            - Ele falou alguma coisa sobre “troca” e “pagarão com sangue”, foram as únicas coisas que eu peguei – disse Jonas.
            Jeremy se afastou de Faye e disse:
            - Eles pediram que os Estados Unidos libertassem Hassan Kalahousseine em troca de nós.
            - Quem é esse cara? – perguntou Jonas.
            - É um terrorista afegão que está preso em Guantânamo desde abril de 2003.
            - Como você sabe tanto? – Christie parecia desconfiada.
            - Sou um cientista político – Jeremy respondeu sem titubear.
            - Pelo que eu saiba, o governo americano não negocia com terroristas, certo? – observou Jonas, voltando ao assunto.
            - Sim... Esse vídeo será colocado na internet ou transmitido pela televisão local e o presidente vai chamar os seus secretários para discutir que medidas o governo tomará, mas eu posso te garantir que Hassan não vai sair de lá tão cedo...
            - E aí o que acontece? – perguntou Christie.
            - Aí entra a parte do “pagarão com sangue” – disse Jeremy – a nossa parte.
            - Peraí, Jeremy, os Estados Unidos vão tentar nos resgatar, não é? – indagou Faye, procurando alguma esperança para se apegar.
            - Como, se nem a gente sabe que lugar é esse? – Jonas não compartilhava do mesmo otimismo em relação ao resgate.
            - Esse lugar é um antigo esconderijo soviético – disse o senhor de olhos azul- turquesa, abrindo sua boca pela primeira vez desde que foram sequestrados.
            Todos olharam surpresos para ele, que continuou:
            - Os soviéticos encontraram algumas construções antigas dentro das montanhas, provavelmente construídas por algum dos povos que moravam aqui há séculos.
            - Como o senhor sabe disso? – indagou Jeremy.
            - Porque eu já estive em um deles uma vez.
            - Quem é você, afinal? – Jonas fez a pergunta que passava pela cabeça de todos.
            - Dmitri Dutchenko, meu jovem. Você se chama Jonas, certo?
            - Aham.
            - Bem, Jonas, a verdade é que antes de vocês nascerem eu já servia ao exército soviético e quando meu país resolveu invadir essa terra eu fui convocado...
            - Como eles não descobriram que você é russo? Com certeza teriam te matado – cortou Jeremy.
            - Eu sei que teriam, por isso viajava com passaporte e identidades falsas.
            - E onde ficava o tal esconderijo em que você esteve? – perguntou Jonas.
            - A cerca de uns 10 km de Asadabad – respondeu Dmitri.
            - É possível que estejamos nele? – indagou Jeremy.
            - É possível, mas ele não era o único... Já estou ficando velho e essas paredes são todas parecidas... um monte de ruínas...
            - Então esses esconderijos nas montanhas existem mesmo... ­– comentou Faye – eu achava que não passavam de uma lenda...
            - Sim, minha cara, só não são os palacetes que a OTAN achou que encontraria em Tora Bora...
            - Isso é impossível! Estamos ocupando esse país há vários anos, como não encontramos nenhum deles até agora? – Jeremy ainda duvidava da história de Dmitri.
            - Americanos, americanos... Quando vocês vão parar de subestimar os outros? Esconderijo fácil de achar não é esconderijo, é suicídio...
            Christie ficou curiosa:
            - Dmitri, você acha que Osama voltou e está escondido num desses bunkers que não foram encontrados?
            - Nunca se sabe, querida, nunca se sabe... A única certeza que se pode ter no momento é esta: nós estamos."


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sábado, 3 de dezembro de 2011

ENTRANDO DE GAIATO NO BARQUINHO

   Por incrível que pareça, o fato narrado a seguir é verdadeiro.

   Dizem que nada melhor que uma crise para conhecermos o valor de alguém. Apesar de a história que vou contar agora não ser uma “crise” como estamos acostumados a ver nos telejornais, serviu para a aplicação do princípio. Vamos lá.
   Um dia minha noiva (nesta época ainda éramos apenas namorados) e eu resolvemos comprar um passeio de barco que estava sendo vendido com um “desconto incrível” em um site de compra coletiva.
   A propaganda do site prometia um passeio pelas “ilhas tropicais” do litoral fluminense, habitat do “boto cinza”, e com direito a caipirinhas de cortesia. Uau! Exótico, heim? Parecia o programa perfeito para um início de namoro: divertido, romântico e... econômico.
   Bem, não posso dizer que não foi inesquecível...
   O site não dizia exatamente onde eram as tais ilhas tropicais, mas pelo pouco que era informado e pelo muito que nossa imaginação nos permitia, julgamos que seria perto de Angra dos Reis. O ponto de encontro era um famoso hotel de Copacabana (que não vou dizer o nome para não fazer propaganda, já que uma vez fui rejeitado em um processo seletivo para advogado júnior desta rede hoteleira – vingança!), de onde sairia o ônibus que nos levaria até a baía onde o barco do amor nos esperava.
   A princípio agendamos para o feriado de 20 de janeiro, um dia que fez um sol de rachar a cuca.
   Quando chegamos à orla de Copacabana, em cima da hora após diversas voltas do 415, vimos um ônibus de turismo cruzando a Avenida Atlântica. No auge do bom humor, brinquei com minha noiva dizendo “já imaginou se esse fosse nosso ônibus?” e rimos juntos. Mas o bom humor virou desespero ao pisar a calçada do tal hotel. Onde estava nosso transporte? Ligamos para a empresa do passeio e descobrimos que aquele ônibus era, de fato, o nosso...
   Depois de uns minutos de muito “tem alguma maneira de pararmos aquele ônibus?”, “e agora?”, “não é possível”, “ai ai ai”, “ui ui ui”, resolvemos por em prática o ditado que diz: se a vida te dá limões, faça uma limonada. Estávamos na praia mais famosa do mundo e decidimos ficar por lá mesmo curtindo o feriado. Por incrível que pareça, a frustração sumiu e nos divertimos muito. Gabriela se mostrou uma mulher calma, que sabe se divertir em qualquer situação. Fiquei mais apaixonado e depois agendamos outra data.
   Na segunda vez, fomos de metrô.
   Em frente ao hotel cujo nome permanecerá impronunciável, uma van nos esperava e logo começaram a chegar os outros participantes da “Pegadinha do Mallandro”, digo, do nosso romântico passeio de barco.
   Contei seis casais, um de coroas bem animados, um de pouco mais de 30 anos, que parecia ser formado por dois atletas, dois casais de adolescentes cheios de hormônios, um casal gay e, por fim, Gabi e eu. Havia também uma mãe com sua filha e uma misteriosa menina que estava sozinha. De repente, na minha neurose de escritor, percebi que aquele parecia o elenco de um filme-catástrofe, o que me preocupou além do normal. Porém, ao invés de descer da van, dominei o medo, venci a neurose e segui viagem – lembrem-se que eu ainda estava na fase de impressionar a namorada!
   Paramos em um lugar chamado Itacuruçá, onde entramos no barco, que não era tão grande quanto pensávamos. O “capitão” do navio nos recebeu com um sorriso e nos informou que o passeio, na verdade, era pela Baía de Sepetiba (!!!) e não de Angra, o que já me deixou irritado e, em seguida, nos serviu as caipirinhas em copos descartáveis. Para completar, ligou o rádio e não custou muito para descobrir que a trilha sonora do passeio se resumiria a pagode, música baiana e a banda mais cool da música popular brasileira, Calypso. Sei o que vocês estão pensando, mas pular do barco não era uma opção.
   Então lá estávamos nós, pombinhos apaixonados, navegando pelas águas da paradisíaca Baía de Sepetiba, acompanhados de Zeca Pagodinho, Alcione, Joelma e Chimbinha, sob um céu de brigadeiro, em busca das prometidas “ilhas tropicais” e do boto cinza.
   A primeira das ilhas, cujo nome sinceramente não lembro, estava mais para restinga e nada tinha de mais além de um bando de gaivotas famintas, vegetação rasteira e umas árvores baixas. Pelo menos a parada serviu para mergulharmos um pouco. Não, nada de snorkel. Duvido que pudesse encontrar algum cardume interessante ali. Talvez sardinha, não sei.
   Erguida a âncora, prosseguimos a viagem e veio a hora do almoço, que merece destaque especial nesta narrativa.
   Abri o cardápio e pedi ao capitão uma porção de pastéis de queijo. “Só tem de carne”, ele respondeu. “Sei lá que carne é essa”, pensei. Meu avô trabalhava para um frigorífico e me contava que alguns restaurantes compravam restos de carne (aqueles que sua mãe corta do bife e joga no lixo antes mesmo de fritá-lo) para fazer esfihas. Não, nada de carne. “Quero uma porção de batata fritas”. O capitão sorriu e anotou meu pedido.
   Não sei quanto tempo se passou desde então, mas as outras pessoas já estavam quase terminando seus pratos, quando o chamei de novo para lembrar de minhas batatas. Ele veio em minha direção fazendo aquela cara de “tomara que ele não me processe” e me avisou que tinham esquecido de descongelar a batata a tempo para o almoço. Como não tinha restaurante em alto-mar, minha única opção era continuar insistindo naquele primor de cozinha.
   - O que você tem, então?
   - Peixe.
   - Com quê?
   - Puro – àquela altura até o aipim frito tinha acabado.
   - Puro?
   - Tem pastel de carne...
   - Não, me vê só o peixe...
   O capitão pareceu ficar feliz. Será que ele pensou que estava diante de um cliente satisfeito?
   Veio o filé de peixe à milanesa. Parecia bom. E farto. Enfiei o garfo e a faca para tirar as espinhas, mas vi que essa seria uma tarefa impossível. Se eu tirasse as espinhas não sobraria nada. Nunca tinha visto espinhas tão grandes. Eram tão grandes que parecia que o peixe tinha costelas. Me senti comendo no Outback, só que da filial Etiópia.
   Comi como um náufrago faminto os poucos pedaços de carne que consegui encontrar naquele peixe mutante e devolvi o prato. Talvez estivesse subnutrido àquela altura, porque não tive ânimo para discutir com o capitão. Ainda bem que minha noiva havia levado biscoitos.
   Passado o episódio do almoço, fomos em direção à segunda ilha tropical e última parada da viagem.
   E dá-lhe mais pagode...
   Haviam se passado horas e horas de viagem desde que saímos de Itacuruçá e ainda não tínhamos visto nenhum raio de boto cinza, quando de repente o capitão avisou que estávamos entrando no habitat do bicho, para em seguida apontar e dizer:
   - Olhem os golfinhos ali!
   - É golfinho ou boto-cinza? – perguntei.
   - É da mesma família... – respondeu o capitão, como que querendo dizer que golfinho e boto é a mesma coisa.
   “Sei...”, pensei.
   Mas o pior é que, além do problema com a Taxonomia de Lineu[1], ninguém viu nada. O capitão disse que as marolas que avistávamos ao longe eram os botos (ou golfinhos, no fantástico mundo de Bob) mergulhando, porém sempre que tentávamos enxergar algum pedaço daqueles reservadíssimos seres marinhos, era impossível. Ou aqueles botos eram como que estrelas daquela região, fugindo desesperadamente dos turistas paparazzi a ponto de ninguém conseguir tirar uma foto sequer para provar que eles estavam lá, ou eram entidades espirituais que só se manifestavam para o capitão médium.
   Eu estava pagando pelos pecados da “mão-de-vaquice”.
   A última ilha até que guardava alguma beleza. Ancoramos e mergulhamos.
   Seguiu-se um lindo momento “A Lagoa Azul”, mas sem ninguém pelado. Minha noiva e eu, apoiados em românticas bóias macarrão, ficamos brincando e namorando na água e acabamos sendo levados pela correnteza para longe do barco. “Vamos voltar”, ela disse.
   Era a hora de mostrar que eu era o homem viril dos sonhos dela, um verdadeiro herói em quem ela poderia depositar toda a sua confiança, que a salvaria de qualquer encrenca. “Segure em mim”, eu disse. Ela me envolveu com seus doces braços e eu comecei a nadar em direção ao barco, movendo meus músculos de aço para vencer a violenta correnteza e salvar a princesa.
   Todavia eis que surge o estraga-prazeres do capitão para arruinar aquele momento hollywoodiano, jogando uma bóia presa numa corda e gritando:
   - Querem ajuda? A gente puxa vocês!
   - Não, obrigado! – respondi prontamente. – Não precisa!
   - Tem certeza? Vocês estão vindo tão devagar...
   Queria mandar aquele capitão para os quintos dos infernos, mas me segurei. Apesar de ter concluído a missão, por questão de honra, havia acabado o clima de heroísmo.
   Voltamos para Itacuruçá. Era o final do passeio e supostamente a van esperava para nos levar de volta à Copacabana.
   Digo supostamente, porque, antes mesmo de alcançamos a terra, o capitão nos deu a melhor notícia do dia:
   - Gente, a correia da van arrebentou, mas estou ligando para chamar outra! - Acho que nem Fred Krugger conseguiria criar um pesadelo pior que aquele passeio.
   Ficamos esperando um tempo enorme em terra até chegar a van substituta, cansados e com fome. Mais uma vez recorremos aos biscoitinhos que minha sábia noiva levara.
   E a cara-de-pau do capitão não tinha fim. Uma das meninas que estava conosco precisava pegar o vôo que sairia em menos de 1h do Aeroporto Tom Jobim e, prontamente, ele se voluntariou a levá-la de volta ao Rio de Janeiro em seu carro, junto com sua esposa, deixando-nos ali com o motorista da primeira van.
   Segundo as regras da marinha de todos os países, até onde eu saiba, o capitão é o último a deixar o navio em caso de desastre. Mas aquele capitão parecia não conhecer essa norma, ou entendeu que, por já estarmos em terra firme, estava desobrigado de seus deveres, como se não fosse mais o responsável pelo bem-estar dos passageiros. Isto sem falar que ele era o dono da empresa que organizara o passeio. Ah se eu tivesse um Código de Defesa do Consumidor ali para jogar na cabeça dele...
   Enfim outra van apareceu e nos trouxe de volta. Ao chegarmos na Avenida Francisco Bicalho, resolvemos descer e pedir um táxi ao invés de seguir para Copacabana. E, para completar o dia, o taxista não só curtia pagode como também estava vendo um dvd do grupo Revelação, que certamente ele pensou que agradaria aos seus novos clientes.
   Apesar de tudo, no dia seguinte, recebi uma mensagem via sms da minha querida noiva dizendo “queria estar naquele barco de novo com você”.
   Viram o que eu disse sobre a crise revelar o valor de uma pessoa? Percebi que aquela era uma mulher incrível. Não deu “piti”, não disse “a culpa é sua”, nem “olha pra onde você me trouxe”. O mais importante para ela era a minha companhia. Meses depois, fiz o pedido de casamento.
   O amor é lindo. 


[1] A Taxonomia de Lineu é extensamente usada nas ciências biológicas. Ela foi desenvolvida por Carolus Linnaeus (Conhecido normalmente como Carl von Linné, ou em português como Carlos Lineu) no Século XVIII durante a grande expansão da história natural. A taxonomia de Lineu classifica as coisas vivas em uma hierarquia, começando com os Reinos. Reinos são divididos em Filos. Filos são divididos em classes, então em ordens, famílias, gêneros e espécies e, dentro de cada um em subdivisões. Grupos de organismos em qualquer uma destas classificações são chamados taxa (singular, taxon), ou phyla, ou grupos taxonómicos. Wikipédia, fonte seguríssima e salvadora dos trabalhos escolares.