A testemunha morava quase dentro da Favela da Maré, há poucos metros da Passarela nº 8 da Avenida Brasil. Eu estava em frente ao portão da casa e ao lado do chassi incinerado do que um dia foi um fusca, desesperado, ligando para o escritório.
De repente, um grito abafado de socorro quase parou meu coração. Vinha de dentro da casa e parecia a voz de uma mulher. Quando informei a novidade pelo celular, a resposta de Nelson não pôde ser mais cretina:
- Dá o teu jeito, Washington! Salve a testemunha!
Comecei a discar 190, porém antes de completar a ligação imaginei que talvez não houvesse tempo suficiente e depois concluí – olhando para o ex-fusca – que a polícia não deveria ser muito bem recebida ali.
- Socorro! – ouvi o grito de novo.
Pensei no Charles Bronson sendo condenado mesmo agindo em legítima defesa. Pensei na possibilidade de perder meu estágio. Mas, sobretudo, pensei no meu PlayStation II.
Em momentos de grande tensão, pessoas costumam fazer coisas idiotas. Eu não era diferente. Decidi invadir a casa através do muro da vizinha, que era mais baixo, mas como não nasci com vocação para trapezista, assim que consegui pular para o muro que dividia os dois terrenos me desequilibrei e cai em cima do varal da testemunha. Não é difícil suspeitar que aquilo não daria certo. A ponta da corda atrás de mim arrebentou e desci pendurado nela como uma mistura de Indiana Jones e Os Trapalhões. E para completar minha patetice, o alagamento da cisterna transformou o chão em uma verdadeira lâmina d’água, o que fez com que eu deslizasse – ainda sem soltar a corda e com um calçolão na minha cara, tapando minha visão – até chapar por completo em uma lixeira e um monte de quiquilharias encostadas na parede dos fundos.
Recompus-me rapidamente, mas não sem antes, num lampejo de Direito Civil, lembrar que, caso causasse algum dano ao patrimônio alheio naquele salvamento, a excludente do “estado de necessidade” não me protegeria de ter que indenizá-lo. “Será que vão descontar do meu pagamento? Não, eles não seriam tão muquiranas... Ah, esqueci que estou lidando com advogados. É claro que vão me descontar.”
- Socooooorro! – o grito abafado me despertou do meu devaneio jurídico.
Entrei pela porta dos fundos (a única destravada) e vasculhei pela casa até encontrar a testemunha de um jeito que eu jamais imaginaria: amordaçada e amarrada pelos pulsos à cabeceira da cama do quarto.
- Ele é maluco! – disse ela assim que tirei a mordaça. – Me tira daqui, moço!
- Quem fez isso com você?
- Tonhão, o meu namorado! – realmente ela tinha um dedo podre para a coisa. – Ele tá achando que eu to traindo ele! Me amarrou aqui pra “mim” não “se” encontrar com ninguém enquanto ele trabalha!
- Ufa! Então ele tá longe daqui...
- Daqui a pouco ele chega pra almoçar!
Ela nem havia terminado a frase e eu já estava desamarrando suas mãos que nem um doido. Coloquei-a sentada na cadeira de rodas, apoiando as pernas engessadas com cuidado, e nos mandamos dali mais rápido que um advogado consegue dizer “liminar inaudita autera pars”.
Quando Tonhão chegou em casa para almoçar, nós já estávamos pegando um táxi na Avenida Brasil.
A Audiência
A última testemunha a ser ouvida antes da moça do caixa era uma moradora do prédio em frente ao lugar onde aconteceu o fato. A senhora Lourdes Maria, de 75 anos, chamada pela acusação, disse que assistiu tudo de sua janela e jurou que viu Eleutério sacar a arma antes da vítima. Doris Day tinha acabado de inquiri-la e o juiz em seguida passou a palavra para Nelson.
O júri observava tudo já cansado, com vontade de ir para casa, e quase chiou quando ouviu a inesperada pergunta do advogado:
- A senhora gostava da novela Selva de Paixões?
- Excelência! Essa pergunta não tem nada a ver com o caso! – protestou Doris.
- Meritíssimo – suplicou Nelson quase teatralmente, antes de ter sua pergunta indeferida –, essa pergunta é crucial para a resolução do caso e prometo que não vou me estender! Deixe-me terminar o raciocínio e todos saberão a verdade!
O juiz consentiu e os jurados baixaram a cabeça.
- Sim, era minha novela preferida... Quando o Orlando Fagundes aparecia na tela minha pressão até subia!
- Muito bem. E a senhora se lembra do último capítulo?
- Claro! Vi duas vezes, até na reprise do sábado!
- A senhora lembra o dia em que foi ao ar o último capítulo?
- Protesto! – interrompeu Doris, novamente.
- Prossiga – disse o juiz.
- A novela Selva de Paixões acabou no dia do ocorrido e o seu último capítulo foi ao ar no exato momento em que o réu repeliu a agressão da vítima! Pode conferir no site da rede de TV! A senhora estava tão distraída que nem sequer ouviu a discussão no trailer, não é?
- Excelência! Ele está induzindo a testemunha!
Nelson, com o rosto vermelho e a veia quase saltando do pescoço, continuou sem esperar a decisão do juiz.
- A senhora não ouviu a discussão e por isso não pôde ter levantado do sofá, pego seu andador e ido até a janela a tempo suficiente de ver se o réu sacou a arma antes ou depois da vítima! É melhor admitir isso antes de ser acusada de violar seu compromisso!
- Protesto! Protesto! – a promotora quase pulava de sua bancada.
O júri agora assistia estarrecido a reviravolta do caso.
- Esse homem é um assassino! O Pedrinho era um bom menino! – bradou dona Lourdes, quando viu que havia sido desmascarada. – Vocês tem que prendê-lo!
- Sem mais perguntas, Excelência... – Nelson voltou ao seu lugar com um sorriso no canto da boca. Clarice e eu, que assistíamos a audiência junto com a plateia embasbacada, tivemos vontade de aplaudi-lo.
O testemunho da Joseane, a moça do caixa, foi apenas a tampa do caixão. A performance surpreendente de Nelson havia pego os jurados de jeito. Por um instante fiquei com aquela sensação ruim de “tanto trabalho pra nada”, no entanto o gosto de ter participado de alguma forma daquela vitória foi tão sensacional que nem tive vontade de reclamar. Além disso os meus hematomas só doeram pra valer no dia seguinte.
Doris Day, em suas alegações finais, abandonou a questão de “quem sacou a arma primeiro” e ressuscitou o ponto do “excesso na legítima defesa”. Nelson já havia refutado essa acusação dizendo que, de acordo com o treinamento que Eleutério recebera, caso tivesse intenção de matar, teria acertado em algum ponto do tórax para cima.
Eleutério Gomes, o Charles Bronson de São Cristóvão, foi absolvido por seis votos contra um e quase pulou de alegria quando ouviu o veredito. Doris Day ficou revoltada e prometeu apelar.
Coloquei Joseane num táxi, porque de jeito nenhum arriscaria encontrar o tal do Tonhão me esperando em Bonsucesso. Antes de partir, ela me perguntou se poderia me “considerar seu herói” e me passou um bilhete com um número de telefone – pelo visto as suspeitas dos seus namorados não eram tão infundadas, ela gostava de um litisconsórcio amoroso...
Coloquei Joseane num táxi, porque de jeito nenhum arriscaria encontrar o tal do Tonhão me esperando em Bonsucesso. Antes de partir, ela me perguntou se poderia me “considerar seu herói” e me passou um bilhete com um número de telefone – pelo visto as suspeitas dos seus namorados não eram tão infundadas, ela gostava de um litisconsórcio amoroso...
Por fim, voltamos para o escritório sorridentes após aquela vitória, mas a estratégia de Nelson se revelou mais surpreendente do que eu pensava:
- Quando você descobriu que o final da novela tinha passado naquele dia? – perguntei.
- Cara, eu sei lá que dia acabou essa novela! Joguei verde pra colher maduro!
- Peraí? Você blefou?
- A testemunha tem o compromisso de falar a verdade, eu não. E eu suspeitava que ela estava mentindo. Você também vai pegar esse feeling.
- Sensacional! – tive a sensação de que aprenderia muito naquele estágio e já comecei a me imaginar um grande advogado num futuro bem próximo.
- Ah, meus parabéns por ter trazido a testemunha. Ótimo trabalho! - por um instante, achei que ele não lembraria de me agradecer pelo meu "heroico" desempenho.
Peguei minha mochila enquanto agradecia. Era o fim do meu primeiro dia no escritório e estava cansado de tantas emoções, porém ainda tinha uma aula me esperando.
Peguei minha mochila enquanto agradecia. Era o fim do meu primeiro dia no escritório e estava cansado de tantas emoções, porém ainda tinha uma aula me esperando.
- Estou dispensado, então?
- Claro, Washington! Quando acabar de arrumar o arquivo, pode ir!
É fato: o estagiário sempre se ferra.
É fato: o estagiário sempre se ferra.






