Atenção, você está intimado a seguir as peripécias de Washington Silva, o zigoto de advogado do Andrade Filho - Advogados Associados, em histórias intrigantes e bem-humoradas sobre os bastidores do Direito!
Fique à vontade para consignar abaixo seus elogios e seus protestos!
A série "Memórias de um Estagiário de Direito" entra em vigor na data desta publicação.
O CASO DO CHARLES BRONSON DE SÃO CRISTÓVÃO - PARTE I
![]() |
| Charles Bronson |
Saí de casa naquela manhã de agosto de 2006 com um ar triunfante, assim que terminei meu café. Na mochila levava os amigos inseparáveis de todo estudante de Direito: um mini vade mecum, o caderno da aula da noite e duas canetas Bic (com as tampas mordidas, é claro!). O terno azul-marinho era novo – presente do meu pai – e a gravata estava no bolso, porque no Rio de Janeiro até no inverno parece que o Senhor às vezes liga o maçarico. Dentro do ônibus lotado que precisava pegar, então, nem se fala.
Meu nome é Washington Silva e aquele era meu primeiro dia no escritório de advocacia Andrade Filho - Advogados Associados, lugar onde conheci pessoas incríveis e vivi inúmeras aventuras, que agora resolvi relatar.
O estágio me fora arranjado pelo meu pai, que era gerente da loja de roupas preferida do Dr. Rubens Andrade Filho, o dono do escritório. É impressionante o network que se forma em uma loja de roupas. Papai sempre conseguia alguma coisa para mim e para meus irmãos através dos seus clientes, como ingressos para shows, descontos em cursos, bicos e, desta vez, um contrato de estágio.
Cursava o 7º período da faculdade de Direito, tinha acabado de pegar minha carteirinha de estagiário da OAB e não apenas desejava um estágio como precisava de um. Nossa família era humilde e, se eu quisesse regalias, tinha que “suar a camisa”, como dizia meu pai, um homem que veio de Reriutaba, interior do Ceará, ainda adolescente e ralou muito aqui no Rio de Janeiro para conquistar seu lugar ao sol, ainda que fosse um lugar bem apertado.
O escritório ficava no 4º andar da Rua México nº 22, sala 401. Enquanto subia pelo elevador, coloquei minha gravata e respirei fundo para conter o nervosismo. Estava uma pilha de nervos. Ensaiei alguns cumprimentos ali mesmo, já que estava sozinho.
- Aperte a mão sempre com firmeza – papai ensinava –, isso mostra que você é um “cabra” decidido.
Toquei a campainha. Ninguém.
Toquei de novo. Nada.
- Estranho...
Apertei o botão mais uma vez.
- Será que errei de número? Mas o nome do escritório está na porta...
Claque, Claque. A porta se abriu e um homem de terno cinza, meio bagunçado, apareceu.
- Desculpe, é que o filho da secretária pegou uma virose e estamos atolados de trabalho aqui. Você é o estagiário novo?
- Sim, Washington Silva, muito prazer – apertei a mão dele com firmeza.
- Nelson Pascarelli. Entre, seja bem-vindo ao nosso time!
O Andrade Filho era um escritório pequeno e pegava todo tipo de causa. Nele testemunhei os casos mais esdrúxulos e também os mais escabrosos. A sala não era muito grande, mas parecia ainda menor que da primeira vez que estive lá, há uma semana, quando fiz a entrevista com o Dr. Andrade. Acredito que tive essa impressão porque agora estava presente todo o imenso corpo jurídico de três advogados que nele trabalhavam.
Nelson Pascarelli era um sujeito engraçado, cheio de TOCs e bastante atrapalhado, mas que se mostrou muito competente em muitos casos de que pude participar. Tinha pouco mais de 30 anos e era especializado em Direito Penal, apesar de atuar em causas cíveis com alguma desenvoltura. Um cara apaixonado pela advocacia, que não conseguia se ver fazendo outra coisa na vida. Brilhante, mas completamente desregrado. Não completava uma pós-graduação que se metia a fazer, sua conta bancária era mais vermelha que o uniforme do América F.C. (havia mais de um ano que ele não conseguia sair do cheque especial) e sua vida amorosa parecia um filme do Woody Allen.
Clarice Oliveira, a outra advogada, era baixinha, magrinha e poderia facilmente ser confundida com uma estagiária, por aparentar ser bem mais nova do que realmente era. Sua aparência meiga e frágil me fazia lembrar a princesa do Mário Bros. (apesar de ser morena), mas isso era só fachada. Não demorou muito para descobrir seu lado estressado, workaholic e, principalmente, combativo, o que conta muito na nossa profissão. Peitava qualquer juiz, policial, atendente de telemarketing... e quando abria a boca para dar uma “escovada” em alguém, parecia uma Tsunami. Fazia mestrado em Responsabilidade Civil e cuidava, na maior parte do tempo, do que chamamos de “contencioso de massa”, ou seja, as ações repetitivas que lotam qualquer tribunal.
Por fim, o chefe. Rubens Andrade Filho, um bon vivant de quase cinquenta anos, administrava o escritório e só atuava nas causas muito grandes. Possuía uma ex-mulher e também ex-sócia que levara metade do escritório no processo de divórcio. Desde então passaram a ser rivais nos negócios e não raramente se engalfinhavam no Tribunal de Justiça do Estado. Gostava de mandar e-mails motivacionais para a equipe, em geral PowerPoints do tipo que todo mundo deleta, mas ficava meio arisco quando alguém pedia um aumento. “Não sei, estamos com muitas despesas”, costumava dizer.
Todos me receberam muito bem, com sorrisos, tapinhas nas costas e a famosa mentira “pode me perguntar qualquer dúvida que eu te ensino”.
Minha primeira tarefa trouxe um peso imenso para meu currículo e agregou muito valor à minha vida profissional:
- Washington, pode arrumar as pastas no nosso arquivo? A semana passada foi muito cheia e acabamos fazendo uma bagunça enorme.
- Claro, Dr. Andrade!
- Pode me chamar de Rubens – disse sorrindo.
Enquanto organizava as pastas dos processos pela ordem alfabética no arquivo de metal colado na parede, aproveitei para ouvir a conversa dos advogados e ir me familiarizando com os assuntos do escritório.
- Clarice, esqueci de te perguntar, como foi a audiência da Vânia na sexta? – perguntou o chefe.
- Horrível! A safada não me disse que tinha feito exames médicos antes de contratar o plano de saúde e eles descobriram que ela já sabia do problema cardíaco. Doença preexistente... Fui pega com as calças arreadas.
- Que droga! – disse Nelson.
- Por falar nisso – continuou o Dr. Andrade, digo, Rubens –, hoje é a continuação da audiência do Eleutério Gomes, não é, Nelson?
- Aham, o Charles Bronson de São Cristóvão.
Clarice riu:
- Só você para dar um nome desses ao caso!
- Saímos sete horas na noite na sexta e o júri ainda não tinha ouvido todas as testemunhas. O juiz marcou a continuação para hoje à 13h. A Doris Day já deve estar roendo as unhas hahaha!
![]() |
| Doris Day |
Aprendi depois que Doris Day era o apelido que Nelson dera à Solange Olivetti, Promotora de Justiça encarregada do caso, por causa do seu jeito xerife, em homenagem ao filme “Ardida como Pimenta”, estrelada pela primeira.
Rubens perguntou se estava tudo ok para a audiência e Nelson disse que sim, precisava apenas buscar uma das testemunhas.
Eu necessitava demais daquele estágio. Queria aprender muito e me tornar um grande advogado, mas, principalmente, pretendia comprar um PlayStation II. Parei de arrumar as pastas e intervi na conversa:
- Posso buscá-la para vocês! Enquanto isso o Nelson fica se preparando para a audiência! – dá-lhe Washington Silva, que exemplo de proatividade!
- Ótima idéia – disse Rubens.
- Esse menino promete, heim? – brincou Clarice.
Nelson concordou e me chamou para explicar o caso, enquanto tirava uma caixa de balas do bolso do terno.
- Quer um tic-tac?
Aceitei e peguei uma bala só, para não parecer muito abusado.
- Pegue duas – a princípio achei que fosse generosidade, mas descobri depois que Nelson tinha um TOC com números ímpares. Até o volume do rádio ele sempre mudava para um número par, mesmo não sendo o dono do aparelho.
Eleutério Gomes era um policial militar aposentado metido a justiceiro. Rezava a lenda que ele havia integrado o Esquadrão LeCoq nos anos 70 e que gostava de caçar os pivetes de São Cristóvão, bairro onde morava, ao melhor estilo Charles Bronson em Desejo de Matar.
Certa noite ele e sua esposa comiam cachorro-quente tranqüilamente em um trailer perto da Quinta da Boa Vista, quando Pedro Lopes, um valentão do bairro apareceu já bêbado e quis conversar com a moça do caixa, sua ex-namorada. Pedro não aceitava o recente fim do namoro, especialmente por haver rumores de que ela já havia feito a fila andar.
Como ela estava trabalhando, tentou enxotá-lo como se fosse uma mosca impertinente e isso o irritou. Começou uma discussão e Pedro foi ficando cada vez mais agressivo, a ponto de segurá-la pelo braço com força.
Foi demais para Eleutério. O justiceiro não podia admitir que uma moça tão simpática fosse tratada daquela maneira. Levantou-se de sua mesa e foi até Pedro.
- Deixe a moça em paz!
- Vá embora, seu velho!
- Eu disse para deixar a moça em paz!
- Vovô, se manda antes que sobre pra você também!
Quando Pedro virou de costas, Eleutério o puxou pela gola da jaqueta e o jogou no chão (a queda foi facilitada pela embriaguez). Em seguida, o velho sacou seu revolver calibre 38 da cintura e deu quatro tiros no valentão: o primeiro ele errou, o segundo ficou alojado na coxa esquerda de Pedro, o terceiro varou a coxa direita e o quarto acertou o seu abdômen. O homem agonizou e morreu antes de a ambulância chegar.
- Estamos alegando legítima defesa – afirmou Nelson.
- Não acha que houve excesso? – perguntei.
Naquele instante aprendi minha primeira grande lição a respeito da advocacia:
- Washington, se você não acredita na sua causa, ela já está perdida antes da sentença. Não somos pagos para julgar, somos advogados... Além disso, Pedro também estava armado e há duas testemunhas que disseram que ele tentou sacar seu revólver antes de Eleutério. O problema é que uma delas já faleceu.
- E a segunda é a que eu tenho que buscar?
- Isso. O nome dela é Joseane Santos, a moça do caixa. Combinei de buscá-la porque sofreu um acidente de moto-táxi e não está podendo andar temporariamente.
- Ok, sem problemas.
- Aqui está – me passou um pedaço de papel com o endereço e uns números de telefone. – Sabe chegar em Bonsucesso?
- Sei, claro.
- Vá de ônibus e volte com ela de táxi – que muquirana. – Pegue dinheiro na saída.
Aceitei minha primeira missão com muita satisfação e também aliviado por ter largado o trabalho chato com as pastas, mesmo sabendo que teria que terminá-lo depois. Mas eu não sabia onde estava me metendo. Quando cheguei ao endereço que Nelson me passara, não encontrei ninguém. Liguei para os números de telefone e ninguém atendia. Perguntei por ela aos vizinhos e me disseram que não a viam desde o dia anterior.
Fiquei desesperado. Faltavam 2 horas para a audiência e a testemunha havia sumido!
Continua na próxima semana!


Cadê a segunda parte? cadê?
ResponderExcluirTá bem legal, Rafael. Manda brasa!
Aguarde, Mário! A segunda parte virá na semana que vem!
ResponderExcluirObrigado pela visita!
Grande abraço!