Sejam todos bem-vindos! Este é um blog criado para divulgar meus contos e trabalhos artísticos. Espero que gostem!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MEMÓRIAS DE UM ESTAGIÁRIO DE DIREITO 3


O Expediente Mortal

Rosa era a serventuária mais odiosa do cartório da 8ª Vara de Fazenda Pública do Rio de Janeiro. Eu mesmo havia sido destratado por ela inúmeras vezes quando tentava fazer carga ou tirar cópia de algum processo. Como se as Varas de Fazenda Pública já não fossem dantescas o suficiente!
Que todos os advogados e estagiários tinham vontade de matá-la, eu já sabia. Mas quando alguém tomou essa iniciativa, confesso que fiquei chocado.
A velha técnica-judiciária morreu às 17h e 45min, pouco antes do horário de atendimento do Fórum encerrar. Caiu de cara em cima de um precatório. Seus colegas de cartório tentaram socorrê-la na mesma hora, porém era tarde demais, a baixa fora definitiva.
A investigação apontou como causa mortis envenenamento com cianureto, o que deixou todos ainda mais surpresos. Lembro que o boato de suicídio circulou um pouco nos corredores do Tribunal, mas logo foi abafado devido a uma premissa simples: Rosa era tão odiosa que jamais pararia de infernizar a vida dos advogados por livre e espontânea vontade. Aliás, não era só o público que ela atormentava. Os outros serventuários da 8ª Vara a detestavam também. A lista de suspeitos da polícia era mais longa que discurso de deputado baiano.
Nós, no escritório, falávamos sobre o caso o tempo todo e foi justamente durante uma conversa banal entre Nelson e eu que Clarice teve um rompante elucidativo à lá Sherlock Holmes e resolveu o mistério.
- Aquela mulher era a maldade em forma de servidora pública – disse Nelson.
- É verdade... A bruxa me fazia esperar enquanto ela conferia folha por folha dos autos sempre que devolvia um processo – reclamei.
- Mas fique tranquilo, Washington, ela não estava apaixonada por você – Nelson poderia perder até o aniversário da mãe dele (o que de fato costumava acontecer), mas nunca, nunca perdia a oportunidade de fazer uma piada –, ela agia assim com todo mundo.
Jamais vou esquecer quando, naquele momento aparentemente inofensivo, Clarice fez uma cara de espanto como se estivesse vendo um fantasma (achei que fosse o da própria Rosa) e em seguida correu desembestada até o telefone para falar com o delegado encarregado do caso, derrubando café no colo de Nelson.
- Aaaaaau! Clarice, assim você vai aposentar o Nelsinho antes do tempo! – saiu gritando em direção ao banheiro. 
No dia seguinte, com um mandado de prisão na mão, a polícia invadiu o escritório da ex-mulher do Dr. Rubens Andrade e levou a advogada Vera Barbosa até a delegacia.
Enquanto observávamos do outro lado da rua junto com um monte de curiosos a advogada sendo colocada na viatura, Vivian, a gatíssima e explosiva ex-mulher do Dr. Rubens, veio furiosa falar conosco.
- Você me paga, Rubens! Isso é denunciação caluniosa! Ela é minha melhor advogada!
- E também uma criminosa – revidou o chefe, sem perder a pose.
- Vou até o Supremo se for preciso!
- Acho melhor gastar suas energias em outro processo – disse ele, abrindo um sorriso no canto da boca –, o processo seletivo para a vaga de advogada...
Vivian saiu cuspindo marimbondos e acompanhou Vera até a delegacia, onde teve o desprazer de ver a advogada confessar o crime.
Ainda na rua, enquanto nos afastávamos da multidão, perguntei à Clarice como ela descobrira tudo, já que até aquele momento ela se recusava a explicar.
- Não fui eu, foi você... e o nome dela! – respondeu a advogada-detetive, sustentando o mistério.
- Não entendi nada. Nome de quem?
- Da Rosa! Quando conversava com Nelson ontem de tarde você comentou que a defunta sempre conferia cada folha dos processos que eram devolvidos no cartório. Lembra como ela fazia?
- Molhava o dedo na língua enquanto passava as páginas... – de repente, as peças se juntaram na minha cabeça. – O veneno estava no precatório!
- Elementar, meu caro Washington. Mas não era o precatório que estava envenenado e sim o processo que a Rosa conferiu antes de pegá-lo. A perícia comprovou que havia cianureto nas pontas das páginas desse processo que, por uma ironia maquiavélica, versava sobre revisão de pensão post mortem, um benefício que o viúvo dela agora receberá.
- Agora eu vou vomitar – Nelson a interrompeu. – Alguém foi capaz de casar com aquele maracujá-de-gaveta?
Como ninguém riu da piada sem graça, Clarice continuou:
- Vi pela internet que Vera foi a última advogada a fazer carga desse processo e lembrei que antes do divórcio do Dr. Rubens, quando Vivian e a equipe dela dividiam o escritório com a gente, Vera me disse que seu marido era químico (logo, foi através dele que ela conseguiu o veneno) e que o livro preferido dela era O Nome da Rosa, que traz um livro envenenado como arma do crime.
- Clarice, você já quis ser detetive? – perguntou Nelson.
- Não... Já quis ser assassina – Clarice respondeu sem pestanejar.
Aquela resposta tinha tudo para ser uma boa tirada de humor, mas o olhar vago de psicopata que ela fez em seguida gelou minha espinha até o cofrinho. 
- Bom, – disse Rubens, meio desconfiado – nesse caso, ainda bem que você mudou de idéia...
- Quem te garante isso? – Clarice deu o sorriso mais enigmático que já vi e saiu andando na frente, sob o pretexto de que precisava “se livrar de um cliente chato”.
Ficamos parados alguns instantes vendo-a se afastar, petrificados.
- Você checou os antecedentes dela, Rubens?
- Não, Nelson... Mas é a primeira coisa que vou fazer quando voltar ao escritório...

FIM

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CAPITÃO ABRANTES


           

            João saiu apressado em direção ao trabalho, mas o diálogo que tivera com sua esposa ainda na porta de casa ecoava repetidamente na sua cabeça:
            - Você tem certeza que quer fazer isso? – ela perguntou.
            - Essa situação acabou se tornando um estorvo para todos nós – ele abriu a porta. – Não tem jeito.
            - Não quer pensar mais um pouco?
            - Já tomei minha decisão. Não estou feliz, mas acho que estou fazendo a coisa certa. Ligue para aquele número que deixei em cima da mesa e acerte tudo, ok?
            - Tudo bem...
            Uma hora depois, dentro de uma sala altamente protegida na Fundação Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, ele se sentou e abriu uma das várias caixas que lotavam o ambiente. João era advogado e fazia parte da Comissão da Verdade, designada para analisar os arquivos secretos da ditadura militar. Sabia que precisava se concentrar em sua importante tarefa e deixar os problemas de casa em casa, por isso fez um esforço mental para esquecê-los e pegou uma volumosa pasta dentre as enfiadas na caixa.
            A etiqueta dizia “Capitão Abrantes - Confidencial”. Recostou-se na cadeira, afrouxou a gravata e abriu a pasta, sem fazer ideia do peso da história que encontraria nas linhas datilografas daquelas cento e poucas páginas que o tempo fez amarelar.
            “Incidente ocorrido em junho de 1970” – dizia a primeira linha.
            - Nem durante a Copa do Mundo as coisas paravam aqui... – o pensamento foi inevitável para João, que por alguns segundos se lembrou da própria infância naquela época.
            Voltou a ler o documento.
            Carlos Abrantes era um viúvo de meia idade, Capitão do Exército, e trabalhava em um setor burocrático dentro do Palácio Duque de Caxias. Sua esposa morrera de câncer em 1959. Tinha um filho único chamado Sérgio, universitário, calouro da Faculdade Nacional de Direito. Os dois moravam em uma casa de vila no bairro do Catete.
            O relatório não fazia menção a qualquer atitude suspeita ou desonrosa do Capitão Abrantes até ali. Pelo contrário, informava muitas condecorações.
            Tudo mudou em 1º de junho de 1970, quando Sérgio saiu para encontrar uns amigos de faculdade e não voltou mais.
Ninguém do caderno de telefones do Capitão Abrantes sabia onde seu filho estava. Mesmo após uma angustiada peregrinação entrando e saindo de delegacias, hospitais, bares e, por fim, do necrotério, nada de Sérgio.
- Bom dia, bom dia... – aos poucos os outros colegas da Comissão começavam a chegar. João respondeu brevemente, mal levantando os olhos.
Após virar o quarto do filho de ponta-cabeça, a foto de uma moça morena, bem bonita, dentro de um dos livros de Filosofia do Direito parecia ser a primeira pista.
O Capitão, vestido como civil, encontrou-a na porta da faculdade, conversando com outros colegas, mas a moça, entrando rapidamente para a aula, disse-lhe não saber de nada.
À noite, porém, um envelope vermelho atravessou por debaixo da porta de sua casa. Da janela pôde ver a moça da foto correndo para longe.
A carta não poderia ser mais aterradora: Sérgio havia sido preso por homens do Serviço Nacional de Informações, confundido com militantes do MR-8 durante uma reunião clandestina. A culpada era ela. Sérgio estava apaixonado e queria se aproximar dela a todo custo. Chegou a fingir ser militante e pediu para acompanhá-la àquela reunião. Era a primeira da qual participara e, no caso, corria o risco de ser a última também. A morena escapou, mas sentia muito, dizia a carta, assinada por “Ingrid”. O paradeiro de Sérgio, no entanto, era desconhecido.
Quando todos os amigos do Exército lhe negaram ajuda e viraram as costas, Capitão Abrantes mergulhou de cabeça no maior pesadelo de sua vida, sem pensar nas conseqüências. A arrepiante imagem do jovem e franzino Sérgio sendo torturado pelo SNI em sua mente não lhe deixava descansar. Jurou a si mesmo que salvaria seu filho mesmo que para isso tivesse que se tornar o inimigo número um da pátria. Coagiu praças e subornou oficiais até descobrir em que porão seu filho estava preso. Buscou informações de todos os tipos que lhe ajudassem a bolar um plano. Vendeu seu Opala para fazer mais subornos. Falsificou documentos, ordens, roubou materiais, armas e por fim voltou a procurar a moça do MR-8. Precisava falar com os líderes de sua célula.
João já estava ficando sem fôlego quando seus colegas o chamaram para o almoço, que ele praticamente devorou para voltar logo ao relatório.
Quando os revolucionários descobriram que ele era um militar, o Capitão foi duramente torturado até conseguir convencê-los de que estava falando a verdade. Por pouco não morreu. Uma vez conquistada a confiança do MR-8, apresentou seu ousado plano.
No dia 21 de junho de 1970, enquanto o Brasil inteiro parava para assistir à final da Copa do Mundo na Cidade do México, a seleção do Capitão Abrantes entrou em campo. Um sabotador provocou um enorme curto na rede elétrica da casa na Lapa em que o SNI mantinha Sérgio e outros estudantes em cativeiro. O incêndio se espalhou rápido e os fez telefonarem para o Quartel-General do Corpo de Bombeiros no primeiro minuto do jogo. Como a bola já rolava, o bombeiro que atendeu a ligação sem desgrudar os olhos da TV não deu muita atenção à patente de quem ligava e mandou os poucos brigadistas dispostos atenderem ao chamado.
Aos 15 minutos de jogo, o caminhão vermelho foi interceptado por Capitão Abrantes e os revolucionários em uma esquina deserta do centro da cidade e os bombeiros rendidos. Rapidamente os uniformes trocaram de corpos e os brigadistas de cuecas foram jogados em uma Kombi que desapareceu em seguida. Três minutos depois, quando Pelé fez o primeiro gol e os cariocas apareceram em peso nas janelas para gritar, ninguém viu nada de errado, só um caminhão do Corpo de Bombeiros indo inocentemente apagar um incêndio.
A ação foi rápida. Enquanto os homens do SNI esperavam mangueiras, foram recebidos com metralhadoras. O efeito surpresa foi tão grande que ninguém tentou reagir.
Sérgio e os outros estudantes foram substituídos pelos agentes do SNI nas celas e levados em meio às chamas até uma ambulância roubada que acabara de chegar ao local – a sincronia era imprescindível.
Com os inimigos amordaçados, amarrados e trancafiados, os revolucionários apagaram o incêndio antes que pudessem chamar mais atenção e foram embora aos 37 minutos do primeiro tempo, enquanto o Brasil inteiro reclamava do gol da Itália.
O advogado imaginou o abraço apertado no reencontro do Capitão Abrantes com seu filho.
Longe dali, no momento em que Gérson fazia o segundo gol do Brasil aos 21 minutos do segundo tempo, o caminhão do Corpo de Bombeiros e a ambulância foram escondidos na garagem de uma fábrica abandonada no subúrbio, junto com os reféns brigadistas. A fábrica no passado pertencera à família do Capitão Abrantes, mas em 1970 não passava de ruínas.
Os estudantes e os revolucionários trocaram de roupa ainda na fábrica, disfarçando-se de torcedores, e se prepararam para realizar a parte final do plano, seguindo em outras duas Kombis – uma delas em direção a um ponto de encontro definido pelos militantes e a outra ao cais do porto, onde um navio de carga holandês esperava para levar o mais novo traidor da pátria, Capitão Abrantes, junto com seu filho, clandestinamente para fora do país.
O que eles não contavam é que Ingrid, na verdade, era uma espiã do SNI e havia transmitido algumas informações sobre o plano, o que permitiu aos agentes da ditadura segui-los até a fábrica, onde os encurralaram enquanto o país comemorava o terceiro gol do Brasil, aos 26 minutos.
João quase não conseguia respirar.
Mesmo com vários policiais e militares armados até os dentes invadindo o esconderijo, Capitão Abrantes não se rendeu. Deixou o MR-8 trocando tiros com eles, pegou seu filho e fugiu pelo mesmo alçapão que seu avô utilizava para fugir dos cobradores. Sua luta não era contra o regime, era a favor do seu filho. Se isso fazia dele um desertor duas vezes, não importava. Só o seu filho importava.
Do lado de fora, roubou o carro de um morador da região que passava desavisado e rumou ao porto quase sem tirar o pé do acelerador. Pelo retrovisor, aparentemente ninguém os seguia.
Quando chegaram na Praça Mauá ouviram novos gritos enlouquecidos. Era o quarto gol do Brasil, aos 41 minutos do segundo tempo. A partida estava quase terminando e, com sorte, a fuga deles também. Largaram o carro em qualquer canto e correram para o cais.
De repente, uma voz conhecida bradou: - Vocês não vão a lugar algum!
Ao virar-se instintivamente, o pai recebeu dois tiros no peito, bem perto do escudo da Seleção. Era Ingrid, acompanhada de agentes do SNI. O grupo antecipadamente os esperava no porto, de arma em punho.
João pôde ver a cena inteira como se estivesse se desenrolando diante de seus olhos mareados, embora esta pequena parte omissa no relatório tivesse ficado a cargo apenas da sua imaginação: Capitão Abrantes, caído nos braços de seu filho, que chorava em alta voz, não precisava mais de palavras para dizer o quanto o amava, por isso reuniu suas últimas forças apenas para dizer: “fuja, meu filho, fuja!”.
Voltando ao relatório: de repente, uma multidão vestida de verde e amarelo saiu como que do nada e envolveu a todos em meio a berros de “Tricampeão! Tricampeão!”, ignorando por completo o que estava acontecendo. O jogo havia terminado.
Não se pode afirmar que a sincronia dos fatos foi um milagre, mas o fato é que, ocultado pela multidão, Sérgio desapareceu diante dos olhos de Ingrid e só restou ao SNI recolher o corpo de seu pai ao som de “Brasil! Brasil!”, porque o navio em que o rapaz embarcaria era um segredo guardado apenas entre pai e filho. O país tinha vencido a Copa do Mundo e Capitão Abrantes vencido a ditadura: seu filho estava a salvo.
O relatório seguia com informações sobre as prisões dos integrantes do MR-8, mas para João já era o bastante por um dia.
Voltou para casa sem conseguir parar de pensar na história.
- Liguei para o número que você pediu – disse a esposa quando ele entrou –, o pessoal do asilo vem pegá-lo amanhã às...
- Esquece – ele a interrompeu –, não vou fazer mais isso.
Enquanto ela permanecia parada na sala, ainda surpresa, João abriu a porta de um quarto e viu novamente a imagem de seu pai deitado na cama, já bem idoso e com o Alzheimer em estágio avançado, que lhe sorriu delicadamente em um dos seus raros momentos de lucidez.
Sentou-se ao seu lado na cama e lhe acariciou os cabelos. João se arrependia por ter esquecido os muitos sacrifícios que o pai fez por ele. Podia não ser o Capitão Abrantes, mas era seu pai, seu herói. E heróis não devem ser abandonados. Devem ser honrados.