O Expediente Mortal
Rosa era a serventuária mais odiosa do cartório da 8ª Vara de Fazenda Pública do Rio de Janeiro. Eu mesmo havia sido destratado por ela inúmeras vezes quando tentava fazer carga ou tirar cópia de algum processo. Como se as Varas de Fazenda Pública já não fossem dantescas o suficiente!
Que todos os advogados e estagiários tinham vontade de matá-la, eu já sabia. Mas quando alguém tomou essa iniciativa, confesso que fiquei chocado.
A velha técnica-judiciária morreu às 17h e 45min, pouco antes do horário de atendimento do Fórum encerrar. Caiu de cara em cima de um precatório. Seus colegas de cartório tentaram socorrê-la na mesma hora, porém era tarde demais, a baixa fora definitiva.
A investigação apontou como causa mortis envenenamento com cianureto, o que deixou todos ainda mais surpresos. Lembro que o boato de suicídio circulou um pouco nos corredores do Tribunal, mas logo foi abafado devido a uma premissa simples: Rosa era tão odiosa que jamais pararia de infernizar a vida dos advogados por livre e espontânea vontade. Aliás, não era só o público que ela atormentava. Os outros serventuários da 8ª Vara a detestavam também. A lista de suspeitos da polícia era mais longa que discurso de deputado baiano.
Nós, no escritório, falávamos sobre o caso o tempo todo e foi justamente durante uma conversa banal entre Nelson e eu que Clarice teve um rompante elucidativo à lá Sherlock Holmes e resolveu o mistério.
- Aquela mulher era a maldade em forma de servidora pública – disse Nelson.
- É verdade... A bruxa me fazia esperar enquanto ela conferia folha por folha dos autos sempre que devolvia um processo – reclamei.
- Mas fique tranquilo, Washington, ela não estava apaixonada por você – Nelson poderia perder até o aniversário da mãe dele (o que de fato costumava acontecer), mas nunca, nunca perdia a oportunidade de fazer uma piada –, ela agia assim com todo mundo.
Jamais vou esquecer quando, naquele momento aparentemente inofensivo, Clarice fez uma cara de espanto como se estivesse vendo um fantasma (achei que fosse o da própria Rosa) e em seguida correu desembestada até o telefone para falar com o delegado encarregado do caso, derrubando café no colo de Nelson.
- Aaaaaau! Clarice, assim você vai aposentar o Nelsinho antes do tempo! – saiu gritando em direção ao banheiro.
No dia seguinte, com um mandado de prisão na mão, a polícia invadiu o escritório da ex-mulher do Dr. Rubens Andrade e levou a advogada Vera Barbosa até a delegacia.
Enquanto observávamos do outro lado da rua junto com um monte de curiosos a advogada sendo colocada na viatura, Vivian, a gatíssima e explosiva ex-mulher do Dr. Rubens, veio furiosa falar conosco.
- Você me paga, Rubens! Isso é denunciação caluniosa! Ela é minha melhor advogada!
- E também uma criminosa – revidou o chefe, sem perder a pose.
- Vou até o Supremo se for preciso!
- Acho melhor gastar suas energias em outro processo – disse ele, abrindo um sorriso no canto da boca –, o processo seletivo para a vaga de advogada...
Vivian saiu cuspindo marimbondos e acompanhou Vera até a delegacia, onde teve o desprazer de ver a advogada confessar o crime.
Ainda na rua, enquanto nos afastávamos da multidão, perguntei à Clarice como ela descobrira tudo, já que até aquele momento ela se recusava a explicar.
- Não fui eu, foi você... e o nome dela! – respondeu a advogada-detetive, sustentando o mistério.
- Não entendi nada. Nome de quem?
- Da Rosa! Quando conversava com Nelson ontem de tarde você comentou que a defunta sempre conferia cada folha dos processos que eram devolvidos no cartório. Lembra como ela fazia?
- Molhava o dedo na língua enquanto passava as páginas... – de repente, as peças se juntaram na minha cabeça. – O veneno estava no precatório!
- Elementar, meu caro Washington. Mas não era o precatório que estava envenenado e sim o processo que a Rosa conferiu antes de pegá-lo. A perícia comprovou que havia cianureto nas pontas das páginas desse processo que, por uma ironia maquiavélica, versava sobre revisão de pensão post mortem, um benefício que o viúvo dela agora receberá.
- Agora eu vou vomitar – Nelson a interrompeu. – Alguém foi capaz de casar com aquele maracujá-de-gaveta?
Como ninguém riu da piada sem graça, Clarice continuou:
- Vi pela internet que Vera foi a última advogada a fazer carga desse processo e lembrei que antes do divórcio do Dr. Rubens, quando Vivian e a equipe dela dividiam o escritório com a gente, Vera me disse que seu marido era químico (logo, foi através dele que ela conseguiu o veneno) e que o livro preferido dela era O Nome da Rosa, que traz um livro envenenado como arma do crime.
- Clarice, você já quis ser detetive? – perguntou Nelson.
- Não... Já quis ser assassina – Clarice respondeu sem pestanejar.
Aquela resposta tinha tudo para ser uma boa tirada de humor, mas o olhar vago de psicopata que ela fez em seguida gelou minha espinha até o cofrinho.
- Bom, – disse Rubens, meio desconfiado – nesse caso, ainda bem que você mudou de idéia...
- Quem te garante isso? – Clarice deu o sorriso mais enigmático que já vi e saiu andando na frente, sob o pretexto de que precisava “se livrar de um cliente chato”.
Ficamos parados alguns instantes vendo-a se afastar, petrificados.
- Você checou os antecedentes dela, Rubens?
- Não, Nelson... Mas é a primeira coisa que vou fazer quando voltar ao escritório...
FIM







