Sejam todos bem-vindos! Este é um blog criado para divulgar meus contos e trabalhos artísticos. Espero que gostem!

terça-feira, 10 de abril de 2012

QUINCAS MADUREIRA - ADVOCACIA INSÓLITA

O ADVOGADO DE FRANKENSTEIN

            Meu nome é Quincas Madureira (sim, eu sofria bullying dos meus pais) e sou um advogado especializado em casos insólitos. Meu lema é: quanto mais bizarro, melhor. Alguns dos meus casos são tão surreais que, se não fossem os registros do Tribunal de Justiça, ninguém acreditaria.
            Essa é a história do meu primeiro cliente.
Victor, um cientista mais ousado que nudista no Polo Norte, decidiu arriscar-se na tentativa mórbida de criar seu próprio Frankenstein a partir dos restos mortais de alguns indigentes, um tocador de acordeom e do cérebro de um político. A tentativa deu certo e a criatura ganhou vida. Mas quando começou a dizer suas primeiras palavras, um detalhe inesperado levou o cientista a uma profunda decepção: seu Frankenstein era vascaíno.
Após várias tentativas de convencê-lo a mudar de time, Victor, que era rubro-negro de coração, não conseguiu suportar a repulsa e abandonou o monstro à própria sorte em São Januário.
Porém um dia, convidados para participar de mais um desses talk shows apelativos da TV, cujo tema era “Meu filho é um monstro e vice-versa”, os dois estiveram face a face novamente. Vendo que Victor não o aceitaria de volta a não ser que cantasse o hino do flamengo ao vivo, Frankenstein, aturdido pelo vozerio do público que não parava de gritar “Mengooooo, Mengoooo!”, atirou o obeso cientista em cima da apresentadora.
Para sua sorte, o cientista escapou ileso, salvo pela vastidão de suas banhas. Pena que da apresentadora não se pôde dizer o mesmo. A coitada quebrou uma perna, duas costelas e seu silicone vazou para as costas, transformando-a de musa da emissora a Corcunda de  Notre Dame em um só dia.
            Como já era de se esperar, a apresentadora ajuizou uma ação contra o monstro pedindo 1 milhão de danos morais, além de exigir que ele pagasse um tratamento psiquiátrico para seu filho, que não se adaptou à nova forma de mamar.
            Contratado por Frankenstein para defendê-lo, consegui convencer o juiz que meu cliente não era uma pessoa (juridicamente, a personalidade se extingue com a morte e além disso ele era uma colcha de retalhos de um monte de gente). Frankenstein era uma coisa, um simples bem, e coisas não podem ser responsabilizadas!! Se você é mordido por um cachorro, processa quem? O cachorro ou o dono? Se alguém tinha o dever de indenizar a apresentadora, era o próprio cientista.
            E assim ganhei minha primeira causa.
           Entretanto, quando procurei meu cliente para cobrar meus honorários, fui surpreendido pela sua astúcia:
            - Você não falou que eu sou uma coisa? Um contrato feito entre uma pessoa e uma coisa não tem validade, tem? – e com a maior cara-de-pau, Frankenstein pegou seu acordeom para ensaiar o hino do Vasco.
            Não estava preparado para tamanha ardilosidade. Bem que me avisaram que o cérebro dele era de um político... Deveria saber que não era confiável!
            Aceitei ficar no prejuízo, afinal. Ninguém quer um monstro enfurecido na sua cola...
            E no mesmo dia, por uma ironia do destino, outro cliente abominável bateu à porta do meu escritório. Era o Monstro do Pântano querendo uma consultoria ambiental.
            - Só trabalho com dinheiro vivo... e adiantado! – avisei enquanto abria um novo pacote de biscoitos.