Engana-se quem pensa que os maiores inimigos de um estudante de Direito são os livros de 600 páginas ou os professores que são mais encontrados nos escritórios que na faculdade. Não, eles atendem pelo nome de Caio, Tício e Mévio (se você leu isso foi graças à digitação, porque até hoje minhas mãos tremem só de lembrar deles), os personagens que aparecem em todos os casos de todos os testes de todos os períodos da faculdade.
Esses três sujeitos já cometeram mais crimes que Fernandinho Beira-Mar, Al Capone e os Irmãos Metralha juntos, são mestres em negócios jurídicos simulados e se envolvem em acidentes tão complexos que se torna quase impossível descobrir quem teve a culpa antes que você fique vesgo de tanto ler a questão.
Naquele dia eu estava tenso por dois motivos: tinha prova de Direito Internacional Privado e ficara sabendo que o videogame dos meus sonhos estava sendo vendido por uma bagatela no Mercado Livre, mas com estoque limitado.
Como o escritório não me dispensou (“Washington, se fosse prova de Processo Civil tudo bem, mas Internacional é mamão com açúcar”, explicação do chefe) resolvi tentar estudar enquanto esperava um processo na fila do Fórum, mas logo descobri que essa foi uma péssima idéia.
Lia uma tipicamente enrolada questão envolvendo Caio, Tício e Mévio (mãos, por favor, parem de tremer!) quando inexplicavelmente comecei a ouvir os nomes dos infames nas conversas dos advogados que passavam por mim no corredor.
A partir daí, toda vez que tentava me concentrar na questão escutava alguém falar “encontrei Tício hoje”, ou “vou preparar o Habeas Corpus do Mévio agora”, ou “a apelação do Caio não foi admitida”.
Fechei a apostila e, ao contrário do que eu esperava, a coisa piorou. Passei a ter a sensação de estar sendo seguido dentro do Fórum e a ouvir sussurros que diziam: “lá está ele, Mévio, vamos pegar aquele estagiário!”
Corri tão desesperadamente que acabei me chocando com um juiz e derrubando seus papéis, mas antes que ganhasse uma voz de prisão me desculpei o suficiente e, assim que os seguranças me soltaram, catei tudo do chão. Dias depois soube que aquele juiz interditou um homem numa ação de paternidade e reconheceu que um idoso de 85 anos era pai de uma menina de 8 meses, mas acho que eu não tive nada a ver com isso...
Agora imaginem meu desespero quando, naquela noite, durante a prova, os três apareceram na minha frente e começaram a querer debater as perguntas comigo!
Pedi ao professor para ir ao banheiro. Lavei o rosto, molhei meus pulsos com água gelada... Aquela alucinação tinha que acabar antes que minha nota se tornasse um zero alucinante!
Quando voltei à sala, quase dei um pulo ao ver Mévio sentado na minha carteira, rabiscando a prova com minha lapiseira.
- Sai daí! Esse lugar é meu!
Todos me olharam com um misto de espanto e desaprovação. Não posso culpá-los, também faria isso se visse alguém discutindo com a carteira.
Mévio saiu, mas não foi embora. Com aquele falatório incessante dos três, acabei entrando na discussão e o professor quase tirou minha prova, achando que estava colando de algum colega. O que eu poderia dizer em minha defesa? Que estava debatendo o caso com os personagens? Concedendo a eles o direito ao contraditório e à ampla defesa? O pior de tudo é que eles tinham bons argumentos... Também, depois de tantos problemas legais, não era de se admirar que tivessem um vasto conhecimento do Direito.
Por fim, decidi que se não conseguiria calá-los, o jeito seria ouvi-los. Quando o professor virou de costas para dar uma rápida espiada pela janela, chamei os três para perto de mim e sussurrei:
- Tudo bem, vou ouvir seus depoimentos. Mas um de cada vez e somente uma vez por questão, durante 1 minuto. Depois vou decidir e será irrecorrível, entenderam?
Mévio a princípio não sabia se aceitava, todavia foi forçado pelos outros. Acho que ele sofria bullying...
E aquele teste se tornou uma audiência quase interminável. Tício chegou até a chorar para me comover na questão nº 3, só que eu sabia que ele não tinha direito à nacionalidade surinamesa.
O professor já estava deixando a sala quando entreguei a prova, mas enfim conseguira responder tudo. Respirei aliviado. E depois de me virar respirei aliviado pela segunda vez: Caio, Tício e Mévio haviam desaparecido num piscar de olhos, como canetas Bic em cima do balcão.
Em casa, mais tarde, liguei meu computador e abri a oferta do Mercado Livre. Era uma bagatela, realmente. Tão barato que tive dúvidas sobre a credibilidade daquele anúncio e resolvi checar o vendedor.
Quase caí da cadeira! O nome do anunciante era Mévio Antunes, o único comprador que deixou um comentário na página se chamava Caio Silva e – aí sim, caí da cadeira – a empresa que faria a venda era a Thi Ci Oh Importações. Desliguei o computador na mesma hora e desisti do negócio. Boa coisa não poderia ser.
Ah, e quanto ao teste... Só acertei a 3ª questão e fiquei em prova final. Pelo menos o professor aceitou meu pedido de trocar o nome dos personagens por nomes de mulheres. Se eu teria companhia no próximo teste, então que fosse feminina.