Sejam todos bem-vindos! Este é um blog criado para divulgar meus contos e trabalhos artísticos. Espero que gostem!

domingo, 28 de outubro de 2012

A luta mais difícil de Sansão

         Wanderson “Sansão” Pereira era um promissor lutador de MMA. Ganhou fama no Pará, sua terra natal, vencendo muitos campeonatos e se estabelecendo como o melhor da região.
        O garoto pobre que começou a vida como balconista de açougue descobriu nas artes marciais mais que uma paixão, descobriu seu verdadeiro eu, o lugar onde ele não era mais um zé-ninguém.
         Gustavo Santos sempre lembrava do combate que assistiu em Belém, numa ocasião em que viajou até lá para visitar seus avós. Ficara impressionado com a agilidade e a força de Sansão. A plateia o ovacionava, mulheres gritavam seu nome, todos queriam uma foto com ele, mas um simples aceno, como o que Gustavo recebeu, já era suficiente. Os patrocinadores apostavam em Sansão e espalhavam cartazes com seu rosto por toda a cidade. Era um ícone.
         Aos 25 anos, como não havia mais ninguém à sua altura no Norte e no Nordeste, Sansão veio treinar no Rio de Janeiro. Começou bem, trazendo muito nome para uma academia da Zona Oeste, depois trocou de empresário e passou a treinar na Zona Sul.
         Sua força era tão grande que o povo costumava dizer que Sansão não batia, distribuía coices.
       Aos 27 anos, já se destacava como o novo nome do vale-tudo brasileiro e abria alguns torneios de UFC. Passara a ser patrocinado por grandes empresas, até mesmo multinacionais, mas o que parecia ser o começo da glória na verdade foi o início de sua tragédia.
        Sansão se tornou autoconfiante demais. E junto com a autoconfiança vieram as mulheres e os amigos que lhe apresentaram uma “coisa maravilhosa” chamada cocaína. Depois veio uma namorada interesseira que torrou seu dinheiro e o fez trocar de empresário novamente, passando a ser agenciado por um sujeito inescrupuloso que, sem que ninguém soubesse, tinha um contrato com um lutador rival que precisava tirar Sansão do caminho. Constantemente passou a ser visto bêbado e drogado, além de faltar a muitos treinos. Afinal, ele era o tal. Treino e disciplina era para iniciantes, não para as estrelas. Virou um trem descontrolado e chegou a parar na delegacia algumas vezes, sempre por fazer arruaça em boates.
      O fundo do poço veio rápido. Ninguém mais apostava nada nele. Os patrocinadores sumiram, os amigos o abandonaram, as piriguetes trocaram de amor e Sansão caiu no ostracismo. Foi varrido pelo vento.
        Fazia quase três anos que não se falava mais no Sansão do Pará, quando Gustavo e o pessoal da ONG financiada por sua igreja começaram um trabalho de recuperação dos viciados em crack que fugiram das favelas de Manguinhos e do Jacarezinho após a ocupação policial.
        E numa noite de outubro, numa pequena crackolândia na entrada da Ilha do Governador, Gustavo reconheceu um dos rostos que tentavam se esconder. Era o lutador que lhe acenara e impressionara tempos atrás.
      Depois de muita insistência do rapaz, o lutador aceitou ser levado para a casa de recuperação administrada pela ONG. Na segunda noite tentou fugir, mas foi encontrado pelos monitores a poucos metros do sítio. Acabou sendo convencido que era melhor voltar.
        Gustavo ia visitá-lo constantemente e mandou instalar no seu quarto um surrado saco para treino que fora substituído por um novo na academia que frequentava. Comprou um par de luvas e imprimiu da internet uma foto de Sansão ainda no auge, para colar no quarto do lutador, ao lado do seu beliche.
       Mas como na maioria dos casos, mesmo com todo incentivo deixar o vício não era fácil. Era o desafiante mais forte que ele já enfrentara.
      Mesmo assim, Sansão se esforçava. Abraçou a fé de Gustavo, fazia tudo que os orientadores mandavam, aprendeu alguns trabalhos manuais e treinava todo o tempo livre. Mas o crack havia acabado com sua agilidade. Sentia-se lento, pesado. A droga comera a parte do seu cérebro que lhe dava agilidade.
         Quis desistir.
         Entretanto, num dia em que pensava em abandonar o sítio de vez, um programa de televisão resolveu ir até lá fazer uma matéria sobre a recuperação de viciados. Os jornalistas se surpreenderam ao descobrir um interno que poderia se chamar de celebridade e a história de Sansão foi contada em rede nacional.
       De repente, uma enxurrada de cartas começou a chegar ao sítio onde ele se tratava. Sua família e muitos fãs estavam felizes em tê-lo reencontrado. A maioria das cartas dizia “não desista!”, “lute, Sansão!” e “esperamos o seu retorno!”.
        Então o lutador se deu conta que não poderia jogar a toalha. Se desistisse, decepcionaria muita gente outra vez.
        As cartas lhe deram mais força e, quando Sansão enfim se viu livre do vício, voltou com Gustavo para sua terra natal, onde foi recebido como um campeão olímpico. Tornou-se um símbolo da luta contra as drogas e passou a ensinar artes marciais para jovens carentes. Não tinha mais condições de disputar torneios oficiais, porém de vez em quando organizava lutas beneficentes. E mesmo que para isso tivesse que enfrentar oponentes que anos atrás cairiam nocauteados com apenas um dos seus socos, isso não importava.
        Sansão era um vencedor no ringue mais difícil de todos: o octógono dentro dele.