Wanderson
“Sansão” Pereira era um promissor lutador de MMA. Ganhou fama no Pará, sua
terra natal, vencendo muitos campeonatos e se estabelecendo como o melhor da
região.
O
garoto pobre que começou a vida como balconista de açougue descobriu nas artes
marciais mais que uma paixão, descobriu seu verdadeiro eu, o lugar onde ele não
era mais um zé-ninguém.
Gustavo
Santos sempre lembrava do combate que assistiu em Belém, numa ocasião em que
viajou até lá para visitar seus avós. Ficara impressionado com a agilidade e a
força de Sansão. A plateia o ovacionava, mulheres gritavam seu nome, todos
queriam uma foto com ele, mas um simples aceno, como o que Gustavo recebeu, já
era suficiente. Os patrocinadores apostavam em Sansão e espalhavam cartazes com
seu rosto por toda a cidade. Era um ícone.
Aos 25 anos, como não havia mais ninguém à sua
altura no Norte e no Nordeste, Sansão veio treinar no Rio de Janeiro. Começou
bem, trazendo muito nome para uma academia da Zona Oeste, depois trocou de
empresário e passou a treinar na Zona Sul.
Sua
força era tão grande que o povo costumava dizer que Sansão não batia,
distribuía coices.
Aos
27 anos, já se destacava como o novo nome do vale-tudo brasileiro e abria
alguns torneios de UFC. Passara a ser patrocinado por grandes empresas, até
mesmo multinacionais, mas o que parecia ser o começo da glória na verdade foi o
início de sua tragédia.
Sansão
se tornou autoconfiante demais. E junto com a autoconfiança vieram as mulheres
e os amigos que lhe apresentaram uma “coisa maravilhosa” chamada cocaína.
Depois veio uma namorada interesseira que torrou seu dinheiro e o fez trocar de
empresário novamente, passando a ser agenciado por um sujeito inescrupuloso
que, sem que ninguém soubesse, tinha um contrato com um lutador rival que
precisava tirar Sansão do caminho. Constantemente passou a ser visto bêbado e drogado, além de faltar a muitos treinos. Afinal, ele era o tal. Treino e disciplina era para iniciantes, não para as estrelas. Virou um
trem descontrolado e chegou a parar na delegacia algumas vezes, sempre por
fazer arruaça em boates.
O
fundo do poço veio rápido. Ninguém mais apostava nada nele. Os patrocinadores
sumiram, os amigos o abandonaram, as piriguetes trocaram de amor e Sansão caiu
no ostracismo. Foi varrido pelo vento.
Fazia
quase três anos que não se falava mais no Sansão do Pará, quando Gustavo e o
pessoal da ONG financiada por sua igreja começaram um trabalho de recuperação
dos viciados em crack que fugiram das favelas de Manguinhos e do Jacarezinho
após a ocupação policial.
E
numa noite de outubro, numa pequena crackolândia na entrada da Ilha do
Governador, Gustavo reconheceu um dos rostos que tentavam se esconder. Era o
lutador que lhe acenara e impressionara tempos atrás.
Depois
de muita insistência do rapaz, o lutador aceitou ser levado para a casa de
recuperação administrada pela ONG. Na segunda noite tentou fugir, mas foi
encontrado pelos monitores a poucos metros do sítio. Acabou sendo convencido
que era melhor voltar.
Gustavo
ia visitá-lo constantemente e mandou instalar no seu quarto um surrado saco
para treino que fora substituído por um novo na academia que frequentava.
Comprou um par de luvas e imprimiu da internet uma foto de Sansão ainda no
auge, para colar no quarto do lutador, ao lado do seu beliche.
Mas
como na maioria dos casos, mesmo com todo incentivo deixar o vício não era
fácil. Era o desafiante mais forte que ele já enfrentara.
Mesmo
assim, Sansão se esforçava. Abraçou a fé de Gustavo, fazia tudo que os
orientadores mandavam, aprendeu alguns trabalhos manuais e treinava todo o
tempo livre. Mas o crack havia acabado com sua agilidade. Sentia-se lento,
pesado. A droga comera a parte do seu cérebro que lhe dava agilidade.
Quis
desistir.
Entretanto,
num dia em que pensava em abandonar o sítio de vez, um programa de televisão
resolveu ir até lá fazer uma matéria sobre a recuperação de viciados. Os
jornalistas se surpreenderam ao descobrir um interno que poderia se chamar de
celebridade e a história de Sansão foi contada em rede nacional.
De
repente, uma enxurrada de cartas começou a chegar ao sítio onde ele se tratava.
Sua família e muitos fãs estavam felizes em tê-lo reencontrado. A maioria das
cartas dizia “não desista!”, “lute, Sansão!” e “esperamos o seu retorno!”.
Então
o lutador se deu conta que não poderia jogar a toalha. Se desistisse,
decepcionaria muita gente outra vez.
As
cartas lhe deram mais força e, quando Sansão enfim se viu livre do vício,
voltou com Gustavo para sua terra natal, onde foi recebido como um campeão
olímpico. Tornou-se um símbolo da luta contra as drogas e passou a ensinar
artes marciais para jovens carentes. Não tinha mais condições de disputar
torneios oficiais, porém de vez em quando organizava lutas beneficentes. E
mesmo que para isso tivesse que enfrentar oponentes que anos atrás cairiam
nocauteados com apenas um dos seus socos, isso não importava.
Sansão
era um vencedor no ringue mais difícil de todos: o octógono dentro dele.

Parabéns pelo conto, amigo Rafael. Espero que possa liberar para que eu o reproduza no ficção evangélica. Abraço.
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