Sinopse:
Reféns é a emocionante história de cinco estrangeiros – um missionário, uma enfermeira, um cientista político, uma escritora e um ex-militar – que são levados por talibãs para um cativeiro inusitado: um antigo bunker soviético nas montanhas afegãs.
Sem esperança de sobrevivência, a solução encontrada é arriscar uma ousada tentativa de fuga. Mas enquanto os reféns empreendem seu plano, inusitados acontecimentos fazem surgir uma inquietante pergunta: será que a escolha deles pelos sequestradores foi aleatória ou existe um propósito sobrenatural que os une?
Amor. Vingança. Honra. Redenção. Deus. Com uma narrativa empolgante, o livro prende o leitor com muita ação e suspense ao mesmo tempo que expõe o drama de seus personagens e aborda temas que permeiam a existência humana como um todo, independentemente de etnia, língua ou nação.
O trecho a seguir faz parte do Capítulo 2:
"O jovem conseguia abrir os olhos aos poucos e pôde perceber sobre si um belo rosto feminino, emoldurado por cabelos vermelhos, olhando atentamente para ele enquanto passava a mão em sua testa. Sua cabeça estava amparada sobre um pedaço de blusa verde molhada de sangue.
- Ele está acordando – disse ela para os outros.
- Quem é você? – perguntou Jonas à moça.
- Meu nome é Faye e o seu?
- Jonas. O que aconteceu?
- Ele está com amnésia... – disse Christie.
- Eu me lembro de ter pegado um dos caras de turbante que invadiram o ônibus... e mais nada depois disso.
- Você levou uma coronhada na nuca – esclareceu Jeremy, ainda nervoso.
- Então é por isso que minha cabeça está parecendo uma panela de pressão... – Você é médica? – perguntou para Faye.
- Enfermeira... tente descansar agora.
- Durante quanto tempo eu fiquei apagado?
- Umas quatro horas.
- Então já descansei demais – disse Jonas resoluto, enquanto se levantava com um pouco de dificuldade.
Olhou à sua volta e percebeu que aquele local era bem diferente. As paredes possuíam um pouco mais de dois metros de altura e haviam sido construídas todas de grandes blocos de pedras, sendo que em algumas partes estes blocos se encaixavam perfeitamente, ao passo que em outras a composição era bem irregular, parecendo um mosaico de pedras de diferentes tamanhos e formas. O teto era formado de rochas, meio acidentado e com algumas rachaduras. Já o chão era praticamente todo em terra batida, com exceção de algumas pedras planas que podiam ser vistas em alguns lugares, e parecia ter sido quase que perfeitamente nivelado. Também existiam vigas de madeira instaladas junto das paredes – principalmente nos cantos – para auxiliar na sustentação.
Um cômodo minúsculo se formava atrás de uma estreita porta de madeira com algumas rachaduras – era o banheiro: um cubículo de um metro de largura por um de profundidade, também envolto por pedras, contendo uma placa de metal no chão com um furo no meio que servia de latrina.
A pouca iluminação daquele ambiente provinha de duas luminárias presas no alto das paredes. Sua fiação vinha por dentro de um longo tubo de plástico, fazendo um caminho rente às pedras, preso por braçadeiras de metal, e terminava passando por dentro do respiradouro – um buraco que ficava acima de uma enorme porta de ferro um pouco corroída pela umidade.
Estavam trancados.
Jeremy, de pé e encostado numa das paredes, inquieto, pensava o tempo todo. Suas mãos não paravam de se mexer, ora estalando os dedos, ora tocando seu rosto. Era o mais tenso de todos. Christie e o homem que lhe ajudara com a mala dentro do ônibus pareciam haver se refugiado em cantos opostos da sala, sentados. Ele exibia um semblante triste, olhando para o chão. Christie continuava fazendo suas preces sem emitir nenhum som. Faye também se levantara, logo após Jonas.
Não era uma sala muito grande. No entanto seu espaço permitia que os reféns se isolassem um pouco para pensar, orar, chorar ou até mesmo refletir na vida que levavam.
- Nós ainda estamos no Afeganistão? – perguntou Jonas.
- Eu acho que nos levaram para o Paquistão... – Christie se manifestou.
- O caminhão era da Cruz Vermelha – disse Faye –, eles podem ter nos levado para qualquer lugar sem enfrentar muitos problemas...
- Nós ainda estamos no Afeganistão – Jeremy afirmou de forma categórica. – Teriam revistado a parte de trás do caminhão se tivéssemos cruzado a fronteira. Duvido que eles correriam esse risco.
- Eles podem ter subornado alguém para isso – argumentou Jonas.
Jeremy continuou:
- Minha aposta é que tenham nos levado a algum lugar perto de Charikar. Dava tempo. O nosso ônibus estava indo em direção a Cabul e quando fomos atacados fazia mais ou menos uma hora que ele havia saído de Jalalabad.
- É verdade – concordou Christie – viajamos mais de duas horas e meia naquele caminhão. Mas eles também podem ter voltado para Jalalabad e pegado a estrada para Methar Lam. Podemos estar numa das montanhas perto da aldeia. Tinha um rasgo no meu capuz e eu pude ver que andamos uns metros dentro de uma caverna depois que saltamos do caminhão.
Jonas sentiu que era o único do grupo que não passeou bastante pelo Afeganistão. Não conhecia metade dos lugares mencionados até aquele momento.
- Methar Lam está ocupada, há uma base lá – Jeremy refutou a teoria de Christie –, eles não foram para lá.
- Eu não disse que estaríamos em Methar Lam, necessariamente – Christie insistiu –, eu disse “perto”, em algum lugar na província de Laghman.
- E se eles ficaram rodando em círculos para nos enganar? – Faye levantou uma tese que fazia sentido. – Talvez ainda estejamos próximos à estrada onde nos pegaram.
- Em resumo, podemos estar em qualquer lugar. Ótimo – concluiu Jonas, sarcasticamente.
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| Caverna afegã |
Ficaram em silêncio, pensando em tudo que havia sido dito.
De repente, ouviram sons de passos do lado de fora, seguidos de um estalo na porta de ferro. Os sequestradores entraram abruptamente, uns com fuzis nas mãos, outros segurando cordas e capuzes pretos. Como se não bastassem as armas, gritavam para intimidá-los. Amarraram e encapuzaram um a um, levando-os depois por um estreito corredor até uma outra câmara bem parecida com a que eles estavam.
Seus corações disparavam dentro de seus peitos e eles se sentiam sufocados mais pelo medo que pelo pano grosso que cobria suas cabeças.
Foram colocados de joelhos um do lado do outro, enfileirados. Suas mãos estavam amarradas atrás das costas.
Retiraram os capuzes deles.
Naquela sala havia uma bandeira afegã ao fundo e uma filmadora presa a um tripé bem na frente deles. Dois homens com os rostos cobertos – só dava para ver os olhos – ficavam em pé atrás deles e um terceiro operava a câmera, sem máscara. Ao lado dele um outro homem se preparava para fazer um discurso ameaçador. Sua voz apareceria em off e por isso não se preocupava em esconder a face.
Lágrimas silenciosas corriam do rosto de Faye, que se contraía em angústia. Seus lábios tremiam. Christie tentava se acalmar com suas orações e Jeremy se concentrava nas palavras dos sequestradores para traduzir o que diziam. Jonas sentia mais raiva do que medo, contudo não quis encontrar um meio de resistir desta vez, era melhor observar e esperar. Afinal, naquela situação, não havia muito o que fazer senão obedecer. O senhor era o único que não esboçava muita reação. Se estava assustado ao menos não demonstrava, permanecia sério e contido, como se estivesse acostumado a situações desse tipo.
Jonas olhou para Faye e sentiu pena dela. Não a conhecia, mas queria poder fazer alguma coisa para que ela parasse de chorar. Por um instante percebeu que suas atitudes deveriam ser bem calculadas para não colocar em risco a vida daquelas outras pessoas. Não dava para brincar de criança rebelde. Não ali.
Jeremy buscava reparar atentamente em tudo. Olhou para a direita e viu que a porta estava entreaberta. Queria ver como era o corredor, quantas câmaras tinha aquele lugar, etc. “Droga de miopia!”, pensou.
O cameraman deu uma breve espiada na tela de LCD aberta ao lado da filmadora para ver se estavam todos bem enquadrados. Fez sinal para o homem do lado, que começou a falar agressivamente.
O frio na barriga era inevitável e junto com ele o medo do inesperado.
O discurso não se amenizava em nenhum momento e o tom de voz exaltado era o típico de um militante inflamado. Jeremy se esforçava para decifrar o significado de cada frase.
Num determinado instante, Jonas sentiu o cano do AK-47 encostar na parte de trás de sua cabeça. Fechou os olhos e se preparou para se despedir desta vida.
Foi um alívio para todos quando no minuto seguinte o homem parou de gritar. O cameraman apertou um botão de sua máquina e fez um sinal para todos com a mão esquerda, ao mesmo tempo que exclamou uma palavra que só seus companheiros entenderam. Christie se perguntou se aquilo era um “corta”, como dizem os diretores de cinema. A filmagem estava encerrada.
O que estava atrás de Jonas desencostou o fuzil kalashnikov de sua cabeça e ajudou os outros sequestradores a colocarem novamente o capuz nos reféns.
Os cinco retornaram à sala em que estavam, onde retiraram os seus capuzes, desamarraram as suas mãos e os jogaram para dentro com a delicadeza de um elefante. A porta foi trancada em seguida com tanta violência que os assustou. Aqueles que estavam de costas não discerniram de primeira se era mesmo a porta batendo ou um tiro sendo disparado.
Faye ainda soluçava quando foi abraçada por Jeremy. Christie e o velho voltaram aos seus lugares de antes. O olhar dele era triste e ela agora começara a chorar. Todos estavam em choque e ninguém conseguia dizer qualquer palavra. Jonas foi para um canto, encostou-se à parede e fechou os olhos.
Somente alguns minutos depois, Christie rompeu o silêncio:
- Alguém... Alguém entendeu o que aquele homem terrível disse?
- Eu falo um pouco de pashtun – respondeu Faye enxugando as lágrimas – mas não consegui entender nada.
- Ele falou alguma coisa sobre “troca” e “pagarão com sangue”, foram as únicas coisas que eu peguei – disse Jonas.
Jeremy se afastou de Faye e disse:
- Eles pediram que os Estados Unidos libertassem Hassan Kalahousseine em troca de nós.
- Quem é esse cara? – perguntou Jonas.
- É um terrorista afegão que está preso em Guantânamo desde abril de 2003.
- Como você sabe tanto? – Christie parecia desconfiada.
- Sou um cientista político – Jeremy respondeu sem titubear.
- Pelo que eu saiba, o governo americano não negocia com terroristas, certo? – observou Jonas, voltando ao assunto.
- Sim... Esse vídeo será colocado na internet ou transmitido pela televisão local e o presidente vai chamar os seus secretários para discutir que medidas o governo tomará, mas eu posso te garantir que Hassan não vai sair de lá tão cedo...
- E aí o que acontece? – perguntou Christie.
- Aí entra a parte do “pagarão com sangue” – disse Jeremy – a nossa parte.
- Peraí, Jeremy, os Estados Unidos vão tentar nos resgatar, não é? – indagou Faye, procurando alguma esperança para se apegar.
- Como, se nem a gente sabe que lugar é esse? – Jonas não compartilhava do mesmo otimismo em relação ao resgate.
- Esse lugar é um antigo esconderijo soviético – disse o senhor de olhos azul- turquesa, abrindo sua boca pela primeira vez desde que foram sequestrados.
Todos olharam surpresos para ele, que continuou:
- Os soviéticos encontraram algumas construções antigas dentro das montanhas, provavelmente construídas por algum dos povos que moravam aqui há séculos.
- Como o senhor sabe disso? – indagou Jeremy.
- Porque eu já estive em um deles uma vez.
- Quem é você, afinal? – Jonas fez a pergunta que passava pela cabeça de todos.
- Dmitri Dutchenko, meu jovem. Você se chama Jonas, certo?
- Aham.
- Bem, Jonas, a verdade é que antes de vocês nascerem eu já servia ao exército soviético e quando meu país resolveu invadir essa terra eu fui convocado...
- Como eles não descobriram que você é russo? Com certeza teriam te matado – cortou Jeremy.
- Eu sei que teriam, por isso viajava com passaporte e identidades falsas.
- E onde ficava o tal esconderijo em que você esteve? – perguntou Jonas.
- A cerca de uns 10 km de Asadabad – respondeu Dmitri.
- É possível que estejamos nele? – indagou Jeremy.
- É possível, mas ele não era o único... Já estou ficando velho e essas paredes são todas parecidas... um monte de ruínas...
- Então esses esconderijos nas montanhas existem mesmo... – comentou Faye – eu achava que não passavam de uma lenda...
- Sim, minha cara, só não são os palacetes que a OTAN achou que encontraria em Tora Bora...
- Isso é impossível! Estamos ocupando esse país há vários anos, como não encontramos nenhum deles até agora? – Jeremy ainda duvidava da história de Dmitri.
- Americanos, americanos... Quando vocês vão parar de subestimar os outros? Esconderijo fácil de achar não é esconderijo, é suicídio...
Christie ficou curiosa:
- Dmitri, você acha que Osama voltou e está escondido num desses bunkers que não foram encontrados?
- Nunca se sabe, querida, nunca se sabe... A única certeza que se pode ter no momento é esta: nós estamos."
Reféns está disponível nos sites www.lojasingular.com.br, www.travessa.com.br,
www.livrariacultura.com.br, www.livrariasaraiva.com.br, www.siciliano.com.br
e também nas Livrarias Eldorado, Galileu e Livraria da Travessa, no Rio de Janeiro.
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