Dizem que nada melhor que uma crise para conhecermos o valor de alguém. Apesar de a história que vou contar agora não ser uma “crise” como estamos acostumados a ver nos telejornais, serviu para a aplicação do princípio. Vamos lá.
Um dia minha noiva (nesta época ainda éramos apenas namorados) e eu resolvemos comprar um passeio de barco que estava sendo vendido com um “desconto incrível” em um site de compra coletiva.
A propaganda do site prometia um passeio pelas “ilhas tropicais” do litoral fluminense, habitat do “boto cinza”, e com direito a caipirinhas de cortesia. Uau! Exótico, heim? Parecia o programa perfeito para um início de namoro: divertido, romântico e... econômico.
Bem, não posso dizer que não foi inesquecível...
O site não dizia exatamente onde eram as tais ilhas tropicais, mas pelo pouco que era informado e pelo muito que nossa imaginação nos permitia, julgamos que seria perto de Angra dos Reis. O ponto de encontro era um famoso hotel de Copacabana (que não vou dizer o nome para não fazer propaganda, já que uma vez fui rejeitado em um processo seletivo para advogado júnior desta rede hoteleira – vingança!), de onde sairia o ônibus que nos levaria até a baía onde o barco do amor nos esperava.
A princípio agendamos para o feriado de 20 de janeiro, um dia que fez um sol de rachar a cuca.
Quando chegamos à orla de Copacabana, em cima da hora após diversas voltas do 415, vimos um ônibus de turismo cruzando a Avenida Atlântica. No auge do bom humor, brinquei com minha noiva dizendo “já imaginou se esse fosse nosso ônibus?” e rimos juntos. Mas o bom humor virou desespero ao pisar a calçada do tal hotel. Onde estava nosso transporte? Ligamos para a empresa do passeio e descobrimos que aquele ônibus era, de fato, o nosso...
Depois de uns minutos de muito “tem alguma maneira de pararmos aquele ônibus?”, “e agora?”, “não é possível”, “ai ai ai”, “ui ui ui”, resolvemos por em prática o ditado que diz: se a vida te dá limões, faça uma limonada. Estávamos na praia mais famosa do mundo e decidimos ficar por lá mesmo curtindo o feriado. Por incrível que pareça, a frustração sumiu e nos divertimos muito. Gabriela se mostrou uma mulher calma, que sabe se divertir em qualquer situação. Fiquei mais apaixonado e depois agendamos outra data.
Na segunda vez, fomos de metrô.
Em frente ao hotel cujo nome permanecerá impronunciável, uma van nos esperava e logo começaram a chegar os outros participantes da “Pegadinha do Mallandro”, digo, do nosso romântico passeio de barco.
Contei seis casais, um de coroas bem animados, um de pouco mais de 30 anos, que parecia ser formado por dois atletas, dois casais de adolescentes cheios de hormônios, um casal gay e, por fim, Gabi e eu. Havia também uma mãe com sua filha e uma misteriosa menina que estava sozinha. De repente, na minha neurose de escritor, percebi que aquele parecia o elenco de um filme-catástrofe, o que me preocupou além do normal. Porém, ao invés de descer da van, dominei o medo, venci a neurose e segui viagem – lembrem-se que eu ainda estava na fase de impressionar a namorada!
Então lá estávamos nós, pombinhos apaixonados, navegando pelas águas da paradisíaca Baía de Sepetiba, acompanhados de Zeca Pagodinho, Alcione, Joelma e Chimbinha, sob um céu de brigadeiro, em busca das prometidas “ilhas tropicais” e do boto cinza.
A primeira das ilhas, cujo nome sinceramente não lembro, estava mais para restinga e nada tinha de mais além de um bando de gaivotas famintas, vegetação rasteira e umas árvores baixas. Pelo menos a parada serviu para mergulharmos um pouco. Não, nada de snorkel. Duvido que pudesse encontrar algum cardume interessante ali. Talvez sardinha, não sei.
Erguida a âncora, prosseguimos a viagem e veio a hora do almoço, que merece destaque especial nesta narrativa.
Abri o cardápio e pedi ao capitão uma porção de pastéis de queijo. “Só tem de carne”, ele respondeu. “Sei lá que carne é essa”, pensei. Meu avô trabalhava para um frigorífico e me contava que alguns restaurantes compravam restos de carne (aqueles que sua mãe corta do bife e joga no lixo antes mesmo de fritá-lo) para fazer esfihas. Não, nada de carne. “Quero uma porção de batata fritas”. O capitão sorriu e anotou meu pedido.
Não sei quanto tempo se passou desde então, mas as outras pessoas já estavam quase terminando seus pratos, quando o chamei de novo para lembrar de minhas batatas. Ele veio em minha direção fazendo aquela cara de “tomara que ele não me processe” e me avisou que tinham esquecido de descongelar a batata a tempo para o almoço. Como não tinha restaurante em alto-mar, minha única opção era continuar insistindo naquele primor de cozinha.
- O que você tem, então?
- Peixe.
- Com quê?
- Puro – àquela altura até o aipim frito tinha acabado.
- Puro?
- Tem pastel de carne...
- Não, me vê só o peixe...
O capitão pareceu ficar feliz. Será que ele pensou que estava diante de um cliente satisfeito?
Veio o filé de peixe à milanesa. Parecia bom. E farto. Enfiei o garfo e a faca para tirar as espinhas, mas vi que essa seria uma tarefa impossível. Se eu tirasse as espinhas não sobraria nada. Nunca tinha visto espinhas tão grandes. Eram tão grandes que parecia que o peixe tinha costelas. Me senti comendo no Outback, só que da filial Etiópia.
Comi como um náufrago faminto os poucos pedaços de carne que consegui encontrar naquele peixe mutante e devolvi o prato. Talvez estivesse subnutrido àquela altura, porque não tive ânimo para discutir com o capitão. Ainda bem que minha noiva havia levado biscoitos.
Passado o episódio do almoço, fomos em direção à segunda ilha tropical e última parada da viagem.
E dá-lhe mais pagode...
Haviam se passado horas e horas de viagem desde que saímos de Itacuruçá e ainda não tínhamos visto nenhum raio de boto cinza, quando de repente o capitão avisou que estávamos entrando no habitat do bicho, para em seguida apontar e dizer:
- Olhem os golfinhos ali!
- É golfinho ou boto-cinza? – perguntei.
- É da mesma família... – respondeu o capitão, como que querendo dizer que golfinho e boto é a mesma coisa.
“Sei...”, pensei.
Mas o pior é que, além do problema com a Taxonomia de Lineu[1], ninguém viu nada. O capitão disse que as marolas que avistávamos ao longe eram os botos (ou golfinhos, no fantástico mundo de Bob) mergulhando, porém sempre que tentávamos enxergar algum pedaço daqueles reservadíssimos seres marinhos, era impossível. Ou aqueles botos eram como que estrelas daquela região, fugindo desesperadamente dos turistas paparazzi a ponto de ninguém conseguir tirar uma foto sequer para provar que eles estavam lá, ou eram entidades espirituais que só se manifestavam para o capitão médium.
Eu estava pagando pelos pecados da “mão-de-vaquice”.
A última ilha até que guardava alguma beleza. Ancoramos e mergulhamos.
Seguiu-se um lindo momento “A Lagoa Azul”, mas sem ninguém pelado. Minha noiva e eu, apoiados em românticas bóias macarrão, ficamos brincando e namorando na água e acabamos sendo levados pela correnteza para longe do barco. “Vamos voltar”, ela disse.
Era a hora de mostrar que eu era o homem viril dos sonhos dela, um verdadeiro herói em quem ela poderia depositar toda a sua confiança, que a salvaria de qualquer encrenca. “Segure em mim”, eu disse. Ela me envolveu com seus doces braços e eu comecei a nadar em direção ao barco, movendo meus músculos de aço para vencer a violenta correnteza e salvar a princesa.
Todavia eis que surge o estraga-prazeres do capitão para arruinar aquele momento hollywoodiano, jogando uma bóia presa numa corda e gritando:
- Querem ajuda? A gente puxa vocês!
- Não, obrigado! – respondi prontamente. – Não precisa!
- Tem certeza? Vocês estão vindo tão devagar...
Queria mandar aquele capitão para os quintos dos infernos, mas me segurei. Apesar de ter concluído a missão, por questão de honra, havia acabado o clima de heroísmo.
Voltamos para Itacuruçá. Era o final do passeio e supostamente a van esperava para nos levar de volta à Copacabana.
Digo supostamente, porque, antes mesmo de alcançamos a terra, o capitão nos deu a melhor notícia do dia:
- Gente, a correia da van arrebentou, mas estou ligando para chamar outra! - Acho que nem Fred Krugger conseguiria criar um pesadelo pior que aquele passeio.
Ficamos esperando um tempo enorme em terra até chegar a van substituta, cansados e com fome. Mais uma vez recorremos aos biscoitinhos que minha sábia noiva levara.
E a cara-de-pau do capitão não tinha fim. Uma das meninas que estava conosco precisava pegar o vôo que sairia em menos de 1h do Aeroporto Tom Jobim e, prontamente, ele se voluntariou a levá-la de volta ao Rio de Janeiro em seu carro, junto com sua esposa, deixando-nos ali com o motorista da primeira van.
Segundo as regras da marinha de todos os países, até onde eu saiba, o capitão é o último a deixar o navio em caso de desastre. Mas aquele capitão parecia não conhecer essa norma, ou entendeu que, por já estarmos em terra firme, estava desobrigado de seus deveres, como se não fosse mais o responsável pelo bem-estar dos passageiros. Isto sem falar que ele era o dono da empresa que organizara o passeio. Ah se eu tivesse um Código de Defesa do Consumidor ali para jogar na cabeça dele...
Enfim outra van apareceu e nos trouxe de volta. Ao chegarmos na Avenida Francisco Bicalho, resolvemos descer e pedir um táxi ao invés de seguir para Copacabana. E, para completar o dia, o taxista não só curtia pagode como também estava vendo um dvd do grupo Revelação, que certamente ele pensou que agradaria aos seus novos clientes.
Apesar de tudo, no dia seguinte, recebi uma mensagem via sms da minha querida noiva dizendo “queria estar naquele barco de novo com você”.
Viram o que eu disse sobre a crise revelar o valor de uma pessoa? Percebi que aquela era uma mulher incrível. Não deu “piti”, não disse “a culpa é sua”, nem “olha pra onde você me trouxe”. O mais importante para ela era a minha companhia. Meses depois, fiz o pedido de casamento.
O amor é lindo.
[1] A Taxonomia de Lineu é extensamente usada nas ciências biológicas. Ela foi desenvolvida por Carolus Linnaeus (Conhecido normalmente como Carl von Linné, ou em português como Carlos Lineu) no Século XVIII durante a grande expansão da história natural. A taxonomia de Lineu classifica as coisas vivas em uma hierarquia, começando com os Reinos. Reinos são divididos em Filos. Filos são divididos em classes, então em ordens, famílias, gêneros e espécies e, dentro de cada um em subdivisões. Grupos de organismos em qualquer uma destas classificações são chamados taxa (singular, taxon), ou phyla, ou grupos taxonómicos. Wikipédia, fonte seguríssima e salvadora dos trabalhos escolares.
Muito boa a jornada!
ResponderExcluirBoa sorte nos próximos contos Sr. Músculos de aço.
Obrigado, Bruno!
ResponderExcluirAdorei!!! Muito bom,teve de tudo um pouco... romance, aventura, comédia, surpresas, sendo que as surpresas fazem parte da vida e de boas histórias a serem compartilhadas... aguardo os proximos contos e boa sorte com o blog.
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